De candidato derrotado na primeira etapa a reeleito para mais quatro anos: a eleição mais acirrada desde a redemocratização terminou com um resultado sem precedentes — e com um país dividido ao meio.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 e conquistou o quarto mandato como presidente da República. A vitória foi confirmada pelo sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 21h08 deste domingo (25), quando 97% das urnas já estavam apuradas e o petista tinha 51,74% dos votos válidos, contra 48,26% do adversário.

Com 99,98% das seções totalizadas às 22h, Lula somava 64.239.690 votos, o equivalente a 51,78% dos válidos; Flávio Bolsonaro tinha 59.818.124 votos, ou 48,22% — uma diferença de pouco mais de 4,4 milhões de votos. O comparecimento foi de 80,78% do eleitorado, com abstenção de 19,22%.

O resultado consagrou uma reviravolta inédita: pela primeira vez desde 1989, um candidato que terminou o primeiro turno atrás em votos conseguiu virar a disputa presidencial. Nas sete eleições que foram ao segundo turno desde a redemocratização, o líder da primeira etapa havia confirmado o favoritismo na final — em 2026, a regra caiu.

O favorito improvável do primeiro turno

Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, terminou o primeiro turno, em 4 de outubro, à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos (56,1 milhões), contra 45,16% do petista (53,9 milhões). A diferença de cerca de 2,2 milhões de votos foi a menor já registrada entre os dois primeiros colocados desde a retomada das eleições diretas, e consolidou o candidato do PL como favorito: nas pesquisas entre os dois turnos, ele esteve sempre à frente, embora com margem apertada. A Quaest divulgada na véspera da votação, que ouviu 3.702 pessoas, apontava 51% dos votos válidos para Flávio e 49% para Lula — empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos.

Lula recebeu o resultado da primeira etapa reconhecendo que esperava vencer de imediato. "Nós acabamos de ter uma lição da democracia no Brasil com a votação do povo brasileiro", disse ele, que na sequência apontou o segundo turno como o momento decisivo: "é a hora da prova dos nove". Em reunião com parlamentares aliados, o presidente admitiu que aquela havia sido "a campanha menos organizada que participei desde 1989".

"O segundo turno é a hora da prova dos nove." — Luiz Inácio Lula da Silva, em 4 de outubro de 2026

A engenharia da virada

A reação da campanha petista combinou três frentes: mobilização digital, uso do pacote de medidas econômicas e sociais e o retorno da militância às ruas. Comandado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), o canal de WhatsApp "Exército do Lula" ultrapassou 10,6 milhões de usuários nos últimos dias da disputa — em transmissão ao vivo, o presidente afirmou que pretendia chegar a 11 milhões de participantes e alcançar 13 milhões na sequência.

No plano das políticas públicas, o governo intensificou, após o revés do primeiro turno, a divulgação de benefícios com impacto eleitoral. Entre as iniciativas, o perdão de R$ 15,5 bilhões em dívidas de microempreendedores individuais (MEIs), aprovado em votação acelerada pelo Congresso e que beneficiaria 3,6 milhões de trabalhadores, além do reajuste de cerca de 15% no Bolsa Família concedido antes do primeiro turno. A campanha incorporou ainda a bandeira do fim da escala de trabalho 6x1, aprovada no Senado após acordo entre o Planalto e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).

Nas ruas, manifestações em apoio à reeleição reuniram movimentos sociais, estudantes, artistas, torcidas organizadas e comunidades de fãs em diferentes cidades na reta final da campanha. O esforço de mobilização se refletiu na apuração: o Datafolha projetou a vitória de Lula quando 84,73% das urnas estavam apuradas, com 51,42% contra 48,58%.

O dia mais longo: votação prorrogada e crise institucional

A votação deste domingo foi marcada por uma confusão jurídica que estendeu parte da votação oficial das 17h para as 19h, a partir de decisão monocrática do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF). A liminar foi pedida pelo PT por volta das 15h46 e atendida perto das 17h, horário oficial de encerramento das seções — decisão que atropelou o TSE, que já havia recebido pedidos do partido e não se posicionou até o fim da tarde. O presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, confirmou a medida na sequência, ressaltando que as seções que já haviam encerrado não seriam reabertas.

A prorrogação respondeu a denúncias de transtornos nos transportes públicos, que atrapalharam o deslocamento de eleitores em pelo menos dez estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe e Paraíba. Grupos de carona solidária se formaram no WhatsApp para viabilizar o deslocamento de quem ainda não havia conseguido votar. No meio jurídico, cresceu o entendimento de que a decisão abre brecha para que candidatos derrotados busquem anular a eleição. Lideranças do PL anunciaram que o partido contestará o resultado: antes mesmo do fim da apuração, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) escreveu no X: "Ou a gente ganha. Ou a gente ganha. Tá avisado". Nos Estados Unidos, o advogado de Donald Trump, Martin De Luca, criticou a prorrogação, e Donald Trump Jr. republicou a postagem.

O mapa da vitória

Lula aumentou em mais de 10 milhões o seu número de votos entre os dois turnos — de 53.879.538 para 64.170.618 —, um crescimento três vezes maior que o de Flávio Bolsonaro, que ganhou 3,6 milhões de eleitores, passando de 56.104.503 para 59.790.152. A queda da abstenção, de 21,08% no primeiro turno — quando mais de 33 milhões de brasileiros deixaram de votar, no maior índice da etapa desde 1998 — para 19,19% na decisão, e a redução de votos brancos (1,12%) e nulos (2,12%) foram decisivas para o resultado.

No exterior, quase 1 milhão de brasileiros estavam aptos a votar em 186 cidades de mais de cem países. Lula venceu em 50 países ou territórios, contra 18 de Flávio Bolsonaro, e liderava a votação entre os eleitores fora do Brasil com 53,42% dos votos válidos, enquanto o adversário mantinha larga vantagem nos Estados Unidos, com 62,25%. A abstenção no exterior recuou de 62,69%, no primeiro turno, para 58,06%. O petista venceu em países como França, Alemanha — onde fez 79,09% a 20,91% —, Espanha, Portugal, Reino Unido, Itália, Bélgica, Suíça, Canadá e Austrália; Flávio venceu no Japão.

O que o quarto mandato herda

A vitória não elimina os obstáculos para o próximo mandato. O PL elegeu a maior bancada da Câmara e do Senado a partir de fevereiro de 2027: foram 121 deputados federais e 19 senadores, com a legenda chegando a 28 integrantes na Casa Alta. A federação PT-PCdoB-PV terá 88 deputados, 70 deles do PT; com PSOL-Rede, PSB e PDT, a esquerda e a centro-esquerda somam 124 cadeiras, cerca de 24% da Câmara. Já a federação União Progressista (87), o PSD (43), o Republicanos (41) e o MDB (36) reúnem 207 cadeiras — e serão o fiel da balança. Como uma emenda constitucional exige o apoio de três quintos das duas Casas — 308 votos na Câmara e 49 no Senado —, a agenda do governo dependerá de negociação permanente.

O PL também pretende comandar o Senado a partir do ano que vem, com o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, entre os nomes cotados para a presidência da Casa — disputa que importa também porque o comando do Senado influencia as sabatinas das indicações ao STF. Lula poderá indicar ao menos quatro ministros à Corte até 2030, nas vagas de Luís Roberto Barroso, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes.

Aos 80 anos, Lula é o político mais velho a assumir a Presidência — fará 81 anos quando tomar posse, em 5 de janeiro de 2027 — e o primeiro a conquistar quatro mandatos pelo voto direto, em sete disputas presidenciais. O novo governo começa sob a sombra da maior polarização da história recente: a diferença final foi de 3,56 pontos percentuais, 4.421.566 votos. Se a virada de 2026 entrou para a história eleitoral do Brasil, o mandato que ela produziu será, desde o primeiro dia, um exercício de equilíbrio entre um Congresso majoritariamente de oposição e uma oposição que contesta até o resultado.