O canal que nasceu da derrota

O "Exército do Lula" foi criado logo depois do primeiro turno, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou a votação atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL). Em 4 de outubro, o candidato do PL somou 56.104.503 votos (47,03% dos válidos) contra 53.879.538 do petista (45,16%) — diferença de cerca de 2,2 milhões de votos.

O canal de WhatsApp é administrado pelo deputado federal André Janones, reeleito por Minas Gerais, e funciona como espaço de transmissão: só o administrador publica, e os inscritos recebem mensagens, vídeos e orientações.

"Soldados" e "missões"

A linguagem é militar. Os integrantes são chamados de "soldados" e recebem "missões":

  • compartilhar vídeos e impulsionar publicações;
  • curtir, comentar e reproduzir mensagens nos próprios perfis;
  • levar o conteúdo além dos seguidores oficiais da campanha.

Na decisão de 13 de outubro, o corregedor do TSE descreveu o mecanismo como um "comando unificado de redes sociais", com tarefas distribuídas aos participantes, algumas com prazo e horário definidos. Os registros técnicos citados no processo apontam 344 mil e 79 mil encaminhamentos em publicações distintas.

O crescimento em duas semanas

  • 12 de outubro — pouco mais de 3,3 milhões de seguidores.
  • 21 de outubro — passa de 7 milhões.
  • 23 de outubro, pouco antes das 18h — atinge 10 milhões.
  • 24 de outubro, na manhã — cerca de 10,6 milhões.
"Quando eu falei em 10 milhões vocês me chamaram de louco!" — Janones, ao comemorar a marca, em 23 de outubro

Três decisões em doze dias

O salto coincidiu com uma sequência de decisões conflitantes no Tribunal Superior Eleitoral — que, pelo relato da própria campanha, ajudou a impulsionar as adesões.

  1. 11 de outubro — suspensão. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determina a suspensão do canal, atendendo a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, que acusava o espaço de disseminar desinformação. A Meta, dona do WhatsApp, tem três horas para interromper o envio de atualizações e a entrada de novos seguidores. O canal tinha 3,3 milhões de inscritos, e Janones chama a decisão de censura.
  2. 13 de outubro — reconhecimento e condição. O corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, reconhece que o canal vinha sendo usado em propaganda eleitoral sem a comunicação exigida pela lei — art. 57-B, § 1º, da Lei 9.504/1997, e art. 28, § 1º, da Resolução TSE 23.610/2019 — e condiciona a retomada à regularização do registro.
  3. 13 de outubro, mais tarde — liberação. Depois que a campanha de Lula registra o endereço do canal na Justiça Eleitoral, Nunes Marques autoriza a retomada, com prazo de 48 horas para a Meta restabelecer as funções. No dia seguinte, a defesa de Janones pede que o ministro reconsidere. O canal volta ao ar com mais de 4 milhões de seguidores.

Em 19 de outubro, com Janones internado, o "Exército do Lula" fica 19 horas sem publicações e só retoma na noite daquela segunda-feira.

"Estão querendo derrubar o canal do Exército do Lula! Quem aí for 13, entra lá pra ajudar a gente?" — mensagem de Janones no canal, em 23 de outubro

O TSE cobra as plataformas

Na sexta-feira 23, o tribunal reúne representantes da Meta, do X, do Google, do TikTok e do Kwai, além das duas campanhas. A Meta, que tinha 24 horas para apresentar relatório detalhado sobre o funcionamento do canal, informa que não identificou violação de suas políticas. Google e X dizem o mesmo.

Mais tarde, o ministro Floriano de Azevedo Marques atende parcialmente a um pedido da campanha de Lula e impede que a Presidência do TSE suspenda ou restrinja o canal por via administrativa, sob pena de multa de R$ 50 mil por dia.

"Há relevante divergência entre membros desta Corte Superior sobre a competência para ordenar a suspensão de canal de comunicação, dissenso que ainda não foi submetido à apreciação colegiada." — ministro Floriano de Azevedo Marques, em 23 de outubro

Do outro lado da mesa, relatórios a cada seis horas

O mesmo 23 de outubro rendeu a decisão mais dura da reta final, e ela não foi sobre o canal de Janones. O corregedor Cueva determinou que Meta e X apresentem, a cada seis horas, relatórios de alcance das publicações do deputado Nikolas Ferreira e do influenciador Pablo Marçal, investigados em uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE 0603123-40.2026.6.00.0000) por suposta desinformação em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro.

O que a decisão exige

  • A cada 6 horas — relatórios com visualizações, origem da audiência e mecanismos de recomendação, com entrega final em até 6 horas após o encerramento da votação.
  • A partir da meia-noite de 24 de outubro — a Meta deve impedir a recomendação automática a não seguidores de publicações dos dois que mencionem candidatos, partidos ou a eleição, no Instagram, no Facebook e no Threads, sem bloquear o acesso de quem já os segue.
  • R$ 500 mil por empresa e por infração comprovada em caso de descumprimento.
  • R$ 100 mil por publicação irregular de Nikolas ou Marçal que viole as regras sobre desinformação, manipulação de imagens e uso irregular de inteligência artificial.

O corregedor negou a exclusão integral dos perfis dos mecanismos de recomendação e a restrição antecipada ao vídeo anunciado por Marçal, por considerar que as medidas poderiam atingir manifestações lícitas. Ressaltou que o TSE já havia determinado a retirada de pelo menos seis conteúdos relacionados aos investigados em menos de três semanas e que os dados disponíveis não comprovam favorecimento irregular pelos algoritmos, embora sejam insuficientes para esclarecer como as postagens foram distribuídas. A decisão será submetida ao referendo do Plenário.

As últimas 24 horas

No último dia de campanha, sábado 24, Janones comanda uma transmissão de 24 horas iniciada logo após o debate entre Lula e Flávio na TV Globo, na noite de sexta. A live chega a mais de 800 mil espectadores simultâneos durante a madrugada, com distribuição de tarefas aos integrantes do canal.

"Quero te agradecer por ter a ideia da gente criar o maior exército democrático da história da humanidade." — Lula a Janones, chamado de "general" na live de 24 de outubro

No ato da Avenida Paulista, Lula lança uma nova meta para o canal: chegar a 13 milhões de integrantes.

No domingo 25, com 99,98% das seções apuradas, Lula vence com 51,78% dos votos válidos contra 48,22% — 64.239.690 votos contra 59.818.124, diferença de 4.421.566.

"Onde tá sendo formada a fila para os que duvidaram de mim pedirem desculpas? (...) EU SEI LER OS SINAS QUE AS REDES EMITEM!" — Janones, depois do resultado

O que o número mede — e o que não mede

Do primeiro para o segundo turno, Lula ganhou 10.360.152 votos e Flávio Bolsonaro, 3.713.621. O canal de Janones cresceu de 3,3 milhões para 10,6 milhões de seguidores no mesmo intervalo — números que descrevem alcance, não voto.

Seguidor de canal é audiência potencial: não há, até aqui, mecanismo público que ligue a inscrição no "Exército do Lula" a uma escolha na urna. O próprio TSE, ao analisar o caso de Nikolas e Marçal, afirmou que os dados disponíveis não comprovam favorecimento irregular pelos algoritmos.

O que ficou documentado é outra coisa: a disputa sobre como a Justiça Eleitoral deve tratar estruturas de mobilização digital. Em doze dias, o tribunal suspendeu o canal, liberou-o e depois limitou o poder da própria Presidência de suspendê-lo por via administrativa, enquanto cobrava das plataformas relatórios de alcance a cada seis horas sobre o outro lado da disputa. A eleição terminou com o resultado apertado e com a regra ainda em aberto: a divergência sobre competência não foi submetida ao plenário.

Foto: Lula Oficial, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0; imagem de agosto de 2022).

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