Perguntado por jornalistas na Casa Branca se acompanhava a votação no Brasil e se apoiava algum dos candidatos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, respondeu com uma frase que resumiu a postura americana ao longo de toda a campanha: "Não quero entrar nesse assunto, mas estamos monitorando". A declaração foi dada neste domingo (25), no início da tarde, horas antes de as urnas fecharem, e evitou o endosso explícito que o senador Flávio Bolsonaro (PL) perseguia desde maio, quando foi recebido no Salão Oval.
A fala chegou ao Brasil antes do resultado. À noite, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu com 51,78% dos votos válidos contra 48,22% do adversário — uma diferença de 4,4 milhões de votos. Até a publicação desta reportagem, a Casa Branca não havia se manifestado oficialmente sobre o desfecho da eleição brasileira.
A frase e o que ela evita
A resposta de Trump foi construída em duas partes. A primeira, "não quero entrar nesse assunto", recusa o papel de fiador de uma candidatura: ao longo dos três meses de campanha, o republicano nunca declarou apoio formal a Flávio Bolsonaro, ainda que o senador tenha construído parte de sua estratégia eleitoral em torno da proximidade com Washington. A segunda, "mas estamos monitorando", mantém o governo americano dentro do jogo — sem compromisso público com o resultado.
"Não quero entrar nesse assunto, mas estamos monitorando." — Donald Trump, em 25 de outubro de 2026
A escolha não é inédita. Em 2 de outubro, na véspera do primeiro turno, Trump já havia usado a mesma fórmula ambígua: "Estamos de olho em tudo e vamos observar esta eleição de muito perto". Na ocasião, também elogiou o país — "o Brasil é um país muito importante, um grande país, as pessoas no Brasil são fantásticas, é uma eleição muito importante" — sem dizer em quem votaria.
Uma campanha em que Washington foi tema central
A eleição brasileira de 2026 foi disputada com o governo americano dentro do noticiário. Em julho, os Estados Unidos impuseram sobretaxas às exportações brasileiras que chegaram a 37,5% sobre parte dos produtos, e a Casa Branca sancionou autoridades brasileiras, entre elas o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O governo americano também classificou as facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras — medida que o Planalto rejeita por razões de soberania.
Flávio Bolsonaro fez do alinhamento com Washington uma bandeira: prometeu aderir ao "Escudo das Américas", aliança regional antinarcóticos liderada pelos EUA, e defender a exploração de terras raras em parceria com empresas americanas. Em maio, foi recebido por Trump no Salão Oval, em encontro registrado em fotografia divulgada pela equipe do senador. Lula, por sua vez, fez da defesa da soberania nacional o eixo de sua política externa e acusou o governo americano de tentar interferir na disputa.
O histórico das declarações
Após o primeiro turno, em 5 de outubro, Trump elogiou o desempenho de Flávio, que terminou a primeira etapa à frente de Lula por 47,03% a 45,16%. "Bom, é uma grande vitória. Muito apertada, mas impressionante, na verdade", disse, prevendo um segundo turno "muito acirrado". Na mesma semana, aproveitou a rapidez da apuração brasileira para criticar o sistema eleitoral dos próprios Estados Unidos — comparação que a agência PolitiFact classificou como sem evidências. No mesmo dia, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que "todos esperavam" que a disputa fosse ao segundo turno.
A cobrança dos democratas e o silêncio sobre reconhecer
As declarações de Trump foram acompanhadas de perto por parlamentares democratas, que acusaram o governo americano de interferência. Em setembro, dez deputados enviaram carta ao Departamento de Estado pedindo esclarecimentos sobre medidas e manifestações que, segundo eles, poderiam influenciar a disputa. O grupo cresceu depois para cerca de 30 congressistas, com apoio do senador independente Bernie Sanders. Em resposta enviada em 16 de outubro, o Departamento de Estado afirmou apoiar "o direito do povo brasileiro a um processo eleitoral livre e justo", mas não se comprometeu a reconhecer o vencedor apontado pelas urnas.
O silêncio sobre o reconhecimento virou tema de bastidor na reta final. Em 23 de outubro, diplomatas estrangeiros em Brasília disseram à agência Reuters que avaliavam reconhecer rapidamente o vencedor justamente para evitar que o resultado fosse contestado de fora. No mesmo dia, o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, disse que Trump "vai respeitar" o resultado — "não significa que vai sair correndo para reconhecer e dizer 'que bom', mas vai respeitar na prática".
O que ficou em aberto
O desfecho da eleição não encerrou a dúvida. Derrotado, Flávio Bolsonaro afirmou ser "impossível reconhecer o resultado" e disse que acionaria o jurídico da campanha para pedir a anulação do pleito, citando a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que prorrogou a votação em todo o país por duas horas. Nos Estados Unidos, o advogado de Trump, Martin De Luca, criticou a medida no X, e Donald Trump Jr. compartilhou a publicação.
Para o mercado e para a diplomacia, a declaração de domingo deixa uma agenda em aberto. As tarifas de 37,5% sobre parte das exportações brasileiras seguem em vigor, e interlocutores do governo brasileiro dizem que Washington sinalizou que as negociações devem destravar após a eleição. Também continuam pendentes o interesse americano pelas terras raras brasileiras, a cooperação no combate ao crime organizado e o agrément do embaixador indicado pelos EUA para Brasília. O "estamos monitorando" de Trump, no fim, foi menos uma posição sobre o Brasil e mais um aviso de que a relação entre os dois países seguirá sendo negociada — caso a caso.
Foto: Casa Branca, via Wikimedia Commons (domínio público).
Fontes
- CNN Brasil — declaração de Trump em 25 de outubro e cobertura da apuração
- Veja, G1, BBC News Brasil, RT Brasil e UOL — declarações de Trump antes e depois do primeiro turno
- AP e Reuters — contexto da relação EUA-Brasil, tarifas e reconhecimento do resultado
- CBN/Globo e Folha de S.Paulo — resposta do Departamento de Estado e avaliação de Celso Amorim