Nunca tantos brasileiros estiveram aptos a votar fora do país: 916.534 eleitores, um recorde e um crescimento de 31,8% em relação a 2022, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nunca tantos também deixaram de votar. No primeiro turno, em 4 de outubro, 62,69% dos eleitores do exterior não compareceram às urnas — 574.345 pessoas, o maior índice pelo menos desde 2010. Nos Estados Unidos, que concentram quase 30% desse eleitorado, a abstenção chegou a 71,55%.
A distância até o consulado, o custo da viagem e o medo da fiscalização migratória americana se somaram para produzir esse resultado. Entre o primeiro e o segundo turno, brasileiros espalhados pelo mundo criaram redes de caronas e hospedagem gratuitas para tentar levar mais gente às urnas — e conseguiram: a abstenção no exterior recuou para 58,06% em 25 de outubro.
O eleitorado que cresceu e a urna que não acompanhou
O contingente de 916.534 eleitores equivale a pouco mais de 0,5% do eleitorado brasileiro, estimado em cerca de 158,7 milhões de pessoas. Para atendê-lo, a Justiça Eleitoral montou 1.351 seções espalhadas pelo mundo — e só é possível votar para presidente e vice-presidente. No primeiro turno, quase 342 mil eleitores compareceram às urnas em 146 cidades de 102 países, segundo o Valor Econômico.
"Para muita gente, votar significa uma viagem longa e cara, de um dia inteiro, às vezes com uma noite fora de casa", resume Pedro Morel Rosa, criador do site "Voto lá fora". O professor de Geografia Política da Universidade de Brasília (UnB) Daniel Abreu aponta a raiz do problema: "A infraestrutura para essa votação não acompanhou o crescimento muito inesperado do número total de pessoas cadastradas para votar. No território nacional, a estrutura de urnas eletrônicas é muito mais capilarizada."
O mapa da abstenção
Os Estados Unidos são o maior colégio eleitoral brasileiro no exterior, com 28,89% do total — 265.022 eleitores cadastrados em 11 jurisdições consulares. Desses, 189.633 não compareceram no primeiro turno. A abstenção saltou de 63,36%, em 2022, para 71,55% em 2026.
Os números por jurisdição mostram a dimensão do afastamento:
- Hartford (Connecticut): 78,75% de abstenção
- Chicago: 77,68%
- São Francisco: 74,85%
- Nova York: 73,98% — dos 38.953 cadastrados, apenas 10.134 votaram, contra 59,49% de abstenção em 2022
- Boston: cerca de 70%, ante 63,7% em 2022
O fenômeno não foi só americano. Em Portugal, segundo maior colégio, com 14,67% do eleitorado externo, a abstenção ficou em 61% — em Lisboa, 63%. Na Espanha, onde só existem seções em Madri e Barcelona, 70% dos brasileiros não votaram. Em Milão, na Itália, a taxa chegou a 69%. O Japão é o terceiro maior colégio, com 9,62% do total.
O medo do ICE
Nos Estados Unidos, a queda de comparecimento coincidiu com o endurecimento da política migratória do governo de Donald Trump. As prisões de brasileiros pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) saltaram para uma média de 14 por dia entre 21 de janeiro de 2025 e 5 de agosto de 2026, contra três por dia nos últimos anos do governo de Joe Biden, segundo o Deportation Data Project.
Só em 2026, até agosto, foram 3.650 detenções de brasileiros, com pico de 709 em julho, segundo o Observatório das Deportações, ligado à Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Seis em cada dez detidos acabam deportados, e quase 60% não respondiam a nenhuma acusação criminal formal — estar em situação irregular é uma infração civil, não penal. As detenções se concentram na Costa Leste, onde vive a maior parte da comunidade: Massachusetts, Flórida, Nova Jersey, Pensilvânia e Nova York, nessa ordem. A idade média dos presos é de 34 anos.
O cerco também se ampliou por outras vias. Até 20 de outubro, o ICE registrava 2.698 memorandos de cooperação com polícias estaduais e locais pelo programa 287(g), em 38 estados e dois territórios — acordos que permitem que uma ocorrência policial de rotina termine em procedimento migratório. E, a partir de setembro, agentes armados da Homeland Security Investigations passaram a bater à porta de moradores de vários estados para perguntar sobre situação migratória e registro eleitoral, numa ofensiva ligada às eleições de meio de mandato americanas, marcadas para 3 de novembro.
O temor chegou ao próprio local de votação. O Consulado-Geral do Brasil em Nova York mudou a seção, que costumava funcionar em colégios de Manhattan, para o Queens College, na região de Flushing — mais distante da ilha e de cidades como Newark, que concentram brasileiros. Em nota, o consulado disse que a escolha levou em conta "a segurança e o conforto da comunidade no ambiente de realização das eleições".
Em Miami, um brasileiro de 46 anos foi preso em 4 de outubro depois de circular pelo Miami-Dade College vestido como agente do ICE — jaqueta azul, boné e máscara no rosto. Danilo Alves Silva disse à polícia que comprou a fantasia na Amazon "para ver a reação das pessoas". Ele foi acusado de intimidação de eleitores, conspiração para suborno, ameaça a servidor público e uso ilegal de insígnia policial. O relato de prisão registra que ele abordou pessoas que temiam ser deportadas.
"Depois disso que aconteceu, acho que quem teve medo por causa do ICE não vai ter. Ele achou que não daria nada e está enfrentando sérias consequências", disse uma jovem brasileira ao Valor. Outra eleitora resumiu a desconfiança que atravessou a campanha: "Não tem como o ICE saber se a pessoa está votando no Lula ou no Flávio; eleitores legais estão votando nos dois."
As caronas: o voto solidário
Diante da abstenção recorde, brasileiros que moram no exterior passaram a se organizar por conta própria. Surgiram redes apartidárias que conectam quem tem carro ou um quarto vago a quem precisa chegar ao consulado.
O site "Voto Lá Fora", criado pelo engenheiro de computação Pedro Morel Rosa, de 27 anos, dois dias depois do primeiro turno, reuniu mais de 900 anúncios de carona e hospedagem em 29 países. O "Voto Sem Fronteiras", criado pela gerente de projetos Tamara Menezes, que mora na Alemanha, chegou a 90 cadastros pelo Instagram; em Portugal, a rede contabilizou cerca de 600 inscrições e cem combinações fechadas. Há ainda o "Voto Solidário", mobilização espontânea sem comitê central.
As distâncias explicam o esforço. O gaúcho Guilherme Curi, que vive em Marbella, no sul da Espanha, dirigiu 580 quilômetros até Madri. "Se a pessoa não tiver condição financeira para dividir o combustível, não tem problema algum. Eu coloco o carro à disposição mesmo assim", disse. A estilista Jeane Santos Bonfim, que vive há nove anos na Espanha, entrou num grupo que oferece hospedagem: "Aqui só dá para votar em Madri ou Barcelona, muitas pessoas não votam porque não têm um lugar para ficar."
Na Inglaterra, o programador Felipe Costa vive em Liverpool e deveria votar em Londres, a 350 quilômetros de casa — mas seu local foi transferido para Edimburgo. Sem dinheiro para duas viagens, o casal teve de escolher quem votaria. "Eu não consegui votar, o custo sempre foi um problema. Foi uma sensação de impotência e injustiça", disse. Pela rede, ele conseguiu hospedagem gratuita para a esposa em Londres. Uma noite de hotel pode custar cerca de 120 libras, quase R$ 800.
A mobilização ganhou eco público. O jornalista Jamil Chade, que mora em Genebra, publicou um apelo para que brasileiros no exterior comparecessem às urnas: "ofereçam carona, adiem planos, chamem os parentes". A publicação passou de 35 mil curtidas.
A prática é legal. A resolução do TSE nº 23.759, de março de 2026, proíbe candidatos, partidos ou qualquer pessoa de oferecer carona ou refeição gratuita a eleitores entre a véspera e o dia seguinte à votação, no Brasil e no exterior. Mas, segundo o professor de Direito Eleitoral da USP Bruno Lorencini, a jurisprudência só considera crime eleitoral quando há intenção de influenciar o voto. "Uma carona entre vizinhos ou amigos, sem finalidade eleitoral, não tem impedimento", afirma.
O que mudou no segundo turno
A mobilização teve efeito. A abstenção entre os brasileiros no exterior caiu de 62,69% no primeiro turno para 58,06% em 25 de outubro. No primeiro turno, Lula havia ficado à frente fora do país, com 47,57% dos votos válidos contra 43,49% de Flávio Bolsonaro — o petista liderou na Europa, na África Subsaariana, no Oriente Médio e no Pacífico, enquanto o senador venceu nas Américas e na Ásia, com 61,1% nos Estados Unidos.
No segundo turno, a apuração parcial do TSE às 22h30 mostrava Lula com 200.154 votos no exterior contra 171.497 de Flávio, e vitória em 62 países ou territórios, contra 38 do adversário. A Organização dos Estados Americanos (OEA) acompanhou a votação com 88 observadores de 21 países, com equipes em seis cidades do exterior — três delas nos Estados Unidos: Miami, Nova York e Washington.
Para quem vive fora, o calendário eleitoral ainda não terminou. Quem não votou no primeiro turno tem até 3 de dezembro para justificar a ausência; quem faltou ao segundo, até 8 de janeiro de 2027. E o alistamento eleitoral, fechado durante a eleição, reabre em 3 de novembro.
Foto: Tdorante10, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Fontes
- TSE — dados de eleitores no exterior, abstenção e apuração por país
- Valor Econômico, G1 e CNN Brasil — abstenção por jurisdição consular e votação no exterior
- Folha de S.Paulo, DW, Opera Mundi e Uruá-Tapera — redes de caronas e hospedagem e regras eleitorais
- Observatório das Deportações (Unimontes), Deportation Data Project e Jovem Pan — detenções de brasileiros pelo ICE e programa 287(g)
- ABC News — prisão por intimidação eleitoral em Miami