O Bradesco (BBDC4) reportou na noite de quinta-feira (22) lucro líquido recorrente de R$ 7,109 bilhões no terceiro trimestre de 2026 — alta de 14,6% em relação ao mesmo período do ano passado e de 0,8% frente ao segundo trimestre. O número ficou praticamente em linha com o consenso: a média das projeções compiladas pela Bloomberg apontava R$ 7,145 bilhões, e a LSEG trabalhava com cerca de R$ 7,1 bilhões.

A receita total somou R$ 38,0 bilhões, levemente acima dos R$ 37,7 bilhões esperados. Mas o balanço que agradou pelo lucro desagradou pelo crédito — e foi isso que definiu a leitura dos analistas no dia seguinte.

O lucro veio, a composição mudou

Foi o 11º trimestre consecutivo de crescimento do lucro recorrente — o 2T26 havia sido o décimo. Segundo a Genial Investimentos, porém, foi o de menor ritmo da sequência.

Os destaques do trimestre:

  • Lucro líquido recorrente: R$ 7,109 bilhões (+0,8% T/T; +14,6% A/A)
  • Receita total: R$ 38,0 bilhões (+8,4% A/A)
  • Margem financeira total: R$ 21,3 bilhões (+2,4% T/T; +14,2% A/A)
  • Receita de serviços: R$ 10,924 bilhões (+3,1% T/T; +3,6% A/A)
  • Despesas gerais: R$ 16,316 bilhões (−1,0% T/T; +3,2% A/A)
  • ROAE: 15,6% (ante 14,7% no 3T25 e 16,2% no 2T26) — 16,1% desconsiderando o aumento de capital
  • Índice de Basileia: 16,0%

O controle de despesas é o ponto forte da tese. As despesas operacionais caíram em termos nominais (−0,7% no trimestre e −1,0% no ano), mesmo com os investimentos em tecnologia e reestruturação de canais, e o índice de eficiência caiu para 47,2%.

O crédito é o ponto de atenção

O que puxou a cautela foi a qualidade da carteira. A inadimplência acima de 90 dias subiu para 4,6%, ante 4,3% no segundo trimestre e 4,1% um ano antes. Por segmento:

  • Pessoas físicas: 5,8% (de 5,5% e 5,4%)
  • Micro, pequenas e médias empresas (MPME): 4,9% (de 4,4% e 3,7%)
  • Grandes empresas: 0,3% (de 0,2% e 0,4%)

O banco atribui o avanço principalmente às linhas de capital de giro para MPME com garantia de recursos do governo federal e à carteira rural, com maior impacto em pessoas físicas. Segundo o Bradesco, os atrasos do primeiro produto responderam por cerca de metade da evolução da inadimplência total; as operações do Banco John Deere também pressionaram os indicadores, por sazonalidade.

A conta aparece nas provisões. A PDD expandida somou R$ 10,642 bilhões, alta de 6,6% no trimestre e de 24,3% em 12 meses — enquanto a margem com clientes cresceu bem menos. O custo do crédito total ficou em 3,7%, 0,2 ponto acima do trimestre anterior. E o índice de cobertura recuou para 142,6%, de 152,3% no 2T26 e 168,9% no 3T25.

A carteira de crédito expandida chegou a R$ 1,150 trilhão ao fim de setembro, com alta de 11,1% em 12 meses, mas de apenas 1,1% no trimestre. O avanço foi maior em pessoas jurídicas (+14,1%) do que em pessoas físicas (+7,4%).

O que dizem os analistas

As casas divergiram menos sobre o número e mais sobre o que vem depois.

O Safra manteve leitura cautelosa: "A combinação entre receitas menos dinâmicas, piora nas tendências de crédito e menor cobertura para operações de maior risco tende a manter a atenção dos investidores voltada à evolução da inadimplência nos próximos resultados."

O BTG Pactual falou em perda de fôlego: "Algumas tendências, particularmente nas receitas e na qualidade dos ativos, sugerem que o crescimento dos lucros pode estar perdendo força."

A Genial reiterou a recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 26,30 para BBDC4, mas resumiu o trimestre com uma frase que virou o diagnóstico da casa: "O 3T26 não muda a direção da tese, mas mostra quem a está sustentando: enquanto a tesouraria e a eficiência carregam o resultado, o desafio passa a ser provar que o crescimento da carteira se converte em lucro depois da PDD." A corretora reduziu a projeção de lucro recorrente de 2026, de R$ 28,3 bilhões para R$ 27,9 bilhões, e apontou que a carteira projetada para o ano cresce 7,1%, abaixo do piso de 8,5% do guidance.

O Itaú BBA, com visão de desempenho superior e preço-alvo de R$ 22, disse que o resultado veio em linha e que as projeções não mudaram — mas alertou que receitas ajustadas ao risco mais fracas e o desempenho mais fraco de seguros devem pressionar as estimativas de 2027. A Ativa, que recomenda compra com alvo de R$ 24, apontou composição pior, com PDD 6% acima do projetado.

Recompra de 106 milhões de ações

Junto com o balanço, o banco anunciou um novo programa de recompra: mais de 106,2 milhões de papéis no mercado, pagos com recursos da Reserva de Lucros Estatutária — o que, segundo a companhia, não afeta obrigações nem a distribuição de dividendos.

O trimestre também é o primeiro a absorver o aumento de capital de R$ 10 bilhões homologado no começo de outubro, que elevou o capital social do banco a R$ 103 bilhões e ampliou o patrimônio líquido. É por isso que o ROAE caiu na comparação trimestral mesmo com o lucro maior: o denominador cresceu mais rápido.

O que o CEO disse

Marcelo Noronha atribuiu o desempenho à combinação de receitas maiores e despesas controladas, em um ambiente que descreveu como adverso: "O mercado de crédito está mais restrito. A taxa de juros se mantém em patamar elevado e a economia desacelera. É cenário desafiador para todos. Vimos nossas receitas relacionadas a crédito crescerem menos, mas conseguimos compensá-las com receitas não oriundas de crédito e bom controle de despesas."

Sobre o Desenrola 3, programa do governo para comprar carteiras inadimplentes com desconto mínimo de 90%, o CEO foi direto: não é prioridade do banco. "Sempre olhamos para todos os programas, o pessoal está analisando aqui, mas até agora a equipe não deu mérito para ter um engajamento alto nisso."

As ações: caíram no meio do dia, fecharam em alta

No pregão de sexta-feira (23), os papéis chegaram a cair quase 2% e, por volta das 11h30, eram negociados abaixo de R$ 20 — com o valor de mercado do banco em R$ 208 bilhões. Ao longo do dia, porém, o movimento virou.

No fechamento, as ações preferenciais (BBDC4) subiram 0,74%, a R$ 20,37, e as ordinárias (BBDC3) avançaram 0,84%, a R$ 18,06. Ou seja: o balanço derrubou o papel na abertura, mas não o suficiente para impedir um fechamento levemente positivo.

O pano de fundo mudou no fim de semana

O balanço do Bradesco saiu em um momento específico do calendário. O banco foi um dos maiores beneficiários do chamado "trade Flávio": os papéis chegaram a subir 22% depois do primeiro turno, o JPMorgan elevou a recomendação para compra com alvo de R$ 28, o UBS BB fez o mesmo, e a BlackRock passou a deter mais de 10% das ações preferenciais.

Dois dias depois do balanço, Lula venceu o segundo turno — e a aposta que sustentava o papel se desfez. O EWZ, que espelha as ações brasileiras em Nova York, desabou cerca de 19% no after-hours, e os contratos perpétuos do Ibovespa negociados na blockchain Hyperliquid caíram até 22,75%. O último pregão antes da eleição fechou a R$ 20,37 por BBDC4; a partir desta segunda-feira (26), o balanço do terceiro trimestre passa a ser lido por investidores que acordaram com outro cenário político.

Foto: Andrevruas, via Wikimedia Commons (CC BY 3.0).

Fontes

  • Investidor10 — reação das ações e leitura de Safra, BTG Pactual e Genial
  • InfoMoney, Valor Econômico e Reuters — números do balanço, PDD, inadimplência por segmento e índice de cobertura
  • Genial Investimentos — relatório do 3T26 e revisão de projeções
  • Valor Investe — fechamento das ações e preços-alvo de Itaú BBA e Ativa
  • Folha de S.Paulo/C-Level — declarações do CEO Marcelo Noronha sobre crédito e Desenrola 3