No discurso da vitória pelo quarto mandato presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez o que raramente se ouve de um presidente reeleito: admitiu em público que terá de governar com um Congresso que não escolheu. A frase — "Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu e com ele vou trabalhar para aprovar as coisas" — resume a principal contradição do mandato que começa em janeiro de 2027.
A virada e o recado à direita
Lula terminou o primeiro turno com 2,2 milhões de votos atrás de Flávio Bolsonaro (PL) e encerrou o segundo com 4,4 milhões na frente — uma diferença líquida de 6,6 milhões de votos em 20 dias. É a primeira virada entre turnos numa disputa presidencial no período democrático brasileiro, desde 1989.
No discurso, sem citar nominalmente o adversário, Lula atacou o que chamou de "milicianismo" e "negacionismo": "Nunca pensei em me deparar com representante do milicianismo desse País, que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez como se não tivesse uma célula de humanismo".
O recado a Trump
Repetindo a fala feita na Assembleia da ONU semanas antes do segundo turno, Lula voltou ao tema que mais diretamente afeta o investidor estrangeiro: "O Brasil não aceita ser quintal de ninguém." A frase é um posicionamento claro em relação à política externa dos Estados Unidos no governo Donald Trump — aliado declarado de Flávio Bolsonaro — e sinaliza que o quarto mandato manterá a linha independente traçada nos três anteriores, incluindo nas relações comerciais com Washington.
Plataformas digitais na mira
O presidente reeleito prometeu regular as plataformas digitais, citando a "intromissão que veio de fora para dentro" por meio delas. A frase — "O crime do mundo digital tem de ser tratado como o crime da vida real" — é a mais concreta até agora sobre o que deve vir de Brasília em matéria de regulação tecnológica no próximo mandato.
André Janones, o general da campanha
A estrela inesperada da virada foi o deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG), que criou o "Exército do Lula" com quase 11 milhões de seguidores no WhatsApp. No discurso, Lula dedicou-lhe um elogio direto: "Janones, nosso general, teve papel exponencial nessa campanha para levantar diariamente a moral dessa nossa tropa." Admitiu falhas na comunicação digital — sempre o trunfo do bolsonarismo — e prometeu que ela "vai ganhar espaço no nosso governo".
O que isso significa para os mercados
Três pontos do discurso merecem atenção de quem acompanha a bolsa brasileira:
- Regulação de plataformas: se virar projeto de lei concreto, é o tipo de medida que afeta diretamente as empresas de tecnologia listadas na B3 (e as Big Techs globais) e pode gerar volatilidade setorial.
- Política externa independente: a frase sobre "quintal de ninguém" reafirma que o Brasil não seguirá automaticamente a linha dos EUA em sanções, comércio ou geopolítica — variável relevante para commodities, câmbio e fluxo estrangeiro.
- Governabilidade por negociação: ao admitir publicamente que o Congresso é adversário, Lula remove uma camada de incerteza: o mercado já estava precificando a dificuldade legislativa. O risco agora não é surpresa, mas execução — se as votações travarem, a reação dos ativos pode ser mais agressiva do que a antecipada.
Números da noite
- Votos válidos: 64,26 milhões (51,79%) para Lula; 59,83 milhões (48,21%) para Flávio Bolsonaro
- Abstenção: 19,22% — menor taxa do período democrático em segundo turno presidencial
- Nulos e brancos: 3,24%
- Total de votos contabilizados: 128,2 milhões (100% das urnas)
- Lula completa 81 anos na quarta-feira (27) — será o presidente mais velho da história do Brasil ao assumir o quarto mandato
"Fui eleito para governar para todos. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu e com ele vou trabalhar para aprovar as coisas." — Lula, no discurso de vitória, 25/10
Este artigo resume a cobertura do Money Times sobre o discurso da vitória presidencial em 25 de outubro de 2026.