Reeleito em uma virada histórica sobre Flávio Bolsonaro — 51,77% a 48,23% com 99,90% das urnas apuradas —, Lula chega ao quarto mandato presidencial no mesmo dia em que o mapa do Congresso é redesenhado: o PL cresceu de forma expressiva e a bancada governista ficou menor. O resultado prático é um presidente que, para aprovar qualquer projeto relevante, terá de negociar com os próprios adversários eleitorais.
O desenho da nova Câmara
Os números divulgados pelo g1 mostram uma bancada governista enxuta:
- PT — 70 deputados e 9 senadores
- PSB — 15 deputados e 4 senadores
- PDT — 6 deputados e 3 senadores
- PSOL — 14 deputados
- Rede — 1 deputado e 1 senador
- PV — 7 deputados
- PCdoB — 11 deputados
Do outro lado, o PL de Flávio Bolsonaro soma 121 deputados e 29 senadores. Os partidos de centro que apoiaram o bolsonarista no segundo turno — PP, União Brasil, Republicanos, Podemos e Novo — acrescentam mais 245 deputados e 51 senadores ao bloco adversário, além de parte do MDB, partido que se rachou entre alas pró-Lula (Norte e Nordeste) e pró-Flávio.
O presidente precisará costurar apoios a partir de agora para tentar fazer frente aos 121 deputados e 29 senadores do PL.
O que muda na prática
Governabilidade é a capacidade de aprovar propostas. Com um Congresso fragmentado e a oposição numericamente superior, três consequências se desenham:
- PECs ficam mais difíceis: emendas à Constituição exigem maioria qualificada (3/5) em dois turnos, o que torna impossível qualquer mudança constitucional sem ao menos uma parte do bloco de centro.
- Orçamento vira moeda de troca: a articulação pelo orçamento — emendas, liberação de emendas e apoio a pautas regionais — será ainda mais determinante do que já foi nos governos petistas anteriores.
- Pauta econômica dividida: temas como reforma tributária, marco legal das criptos e regulação do setor financeiro terão vetores opostos entre governo e oposição, exigindo pontos de acordo intermediários.
O que o governo precisa aprovar primeiro
A primeira prova está sobre a mesa: a PEC da passagem gratuita no transporte público em fins de semana — promessa de reta final de campanha enviada ao Congresso na quarta-feira (21). Sem apoio do bloco de centro, ela não avança. É um teste direto: se Lula conseguir aprová-la, sinaliza que tem espaço de negociação; se travar, confirma a leitura de uma legislatura hostil desde o primeiro semestre.
Nos últimos meses antes da eleição, porém, Lula conseguiu se reaproximar dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Essa relação rendeu vitórias recentes — o fim da taxa das "blusinhas" para compras internacionais de até US$ 50 e o perdão da dívida dos MEIs — e é a principal alavanca que o governo tem para governar com base numericamente menor.
Por que essa configuração importa para os mercados
Investidores que acompanham a bolsa brasileira devem ler esse resultado em duas camadas:
- Risco legislativo, não de transição: Lula vence por 3,5 pontos percentuais e assume o quarto mandato sem incerteza sobre quem ocupa o Palácio do Planalto em janeiro. O risco que se soma é o de uma agenda travada no Congresso — cenário que historicamente pesa mais sobre a bolsa do que a alternância de governo em si.
- Dependência do centro: PP, União Brasil, Republicanos e Podemos formam um bloco heterogêneo (direita econômica x direita social) que só se mantém unido contra o governo por conveniência eleitoral momentânea. A fragmentação interna desse bloco — já visível no racha do MDB — é a variável que mais pode aliviar a pressão legislativa sobre o Planalto ao longo de 2027 e 2028.
O que observar nos próximos meses
- Aprovação da PEC da passagem gratuita (setembro-outubro): primeiro teste real de governabilidade.
- Composição das comissões permanentes da Câmara: quem ocupa as presidências define a pauta do ano.
- Orçamento 2027: o volume de emendas e a distribuição por região revelam onde o governo tem — e não tem — apoio.
- Posse presidencial (janeiro/2027): o discurso de posse e os primeiros vetos/sanções indicam se o tom será colaborativo ou confrontacional com as lideranças do bloco adversário.
Com um Congresso em que a oposição detém maioria simples na Câmara, Lula terá de governar por negociação — não por base própria.
Este artigo resume a análise publicada pelo g1 sobre a composição legislativa pós-eleições 2026 e suas implicações para o próximo mandato presidencial.