O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) matematicamente eleito às 21h10 deste domingo (25). Mas, antes de a B3 abrir — ela só abre nesta segunda-feira (26) —, a vitória já tinha sido precificada com dinheiro real em um mercado que nunca fecha: os contratos futuros perpétuos de ações brasileiras negociados na blockchain Hyperliquid.
Por volta das 22h17 (horário de Brasília), o contrato perpétuo do iShares MSCI Brazil ETF (EWZ), o Ibovespa em dólar, caía 22,75% no acumulado de 24 horas, valendo cerca de US$ 34,86. O movimento arrastou os derivativos das principais empresas brasileiras com ADRs em Nova York:
- Contrato perpétuo Petrobras (PBR.A): −21,50% em 24 horas, cerca de US$ 11,35
- Contrato perpétuo Itaú (ITUB): −19,35%, cerca de US$ 7,80
- Contrato perpétuo Vale (VALE): −14,50%, cerca de US$ 8,85
Por que esses contratos importam
O perpétuo do EWZ é um derivativo sintético liquidado em dólar, negociado 24 horas por dia, sete dias por semana. Como a B3 fica fechada no fim de semana e a bolsa americana só reabre nesta segunda, ele funciona como o principal termômetro — e o principal campo de apostas — do sentimento global em relação à bolsa brasileira em um domingo de apuração.
A carteira por trás do EWZ reúne as maiores empresas listadas no país. Quando o contrato perpétuo despenca 22% em um domingo, o recado é direto: quem tinha exposição ao Brasil estava vendendo, com a bolsa fechada.
A virada na apuração
A derrocada acompanhou minuto a minuto a virada da contagem. O senador Flávio Bolsonaro (PL) teve seu melhor momento na totalização por volta das 20h04, quando pontuou 50,51% dos votos válidos. Às 21h10, Lula foi declarado matematicamente eleito com 51,75%, contra 48,25% do adversário — e foi exatamente nesse intervalo que os contratos viraram.
O movimento no Hyperliquid não foi o único sinal. Antes mesmo da queda mais forte, um derivativo vinculado ao EWZ na mesma plataforma já havia registrado baixa de 10,63% conforme as expectativas mudavam.
O mercado tradicional fora de hora
Nos pregões fora do horário regular, o estrago apareceu com números parecidos. O EWZ havia fechado a sexta-feira (23) a US$ 42,59, em alta de 1,77%, no embalo do otimismo com uma mudança de governo. No after-hours de domingo, recuou para a faixa entre US$ 34,23 e US$ 34,95, queda de 17,97% a 19,63% — uma perda de quase US$ 8 por cota.
Os recibos de ações seguiram o mesmo caminho: os ADRs da Petrobras caíam cerca de 12%, os da Vale perdiam mais de 4% e os do Itaú derretiam quase 14%.
No câmbio, a reação também chegou antes do pregão. O contrato futuro contínuo de real na CME, em Chicago, recuava 9,1%, a US$ 0,18145 por real, o que aponta para um dólar implícito de R$ 5,50 a R$ 5,51 — ante R$ 4,9930 no fechamento de sexta-feira, quando o Ibovespa subiu 0,47% e a moeda americana caiu 0,90%.
Vale a ressalva de sempre: o after-hour e os mercados paralelos dão indicações, mas não determinam o desempenho do pregão regular.
O "trade Flávio" e o tamanho da aposta
A reação só é tão violenta porque o mercado estava posicionado de um lado só — o lado que perdeu.
Logo depois do primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula e o mercado embarcou no chamado "trade Flávio": na segunda-feira seguinte, o Ibovespa avançou cerca de 7,7%, para 206.920,66 pontos, superando pela primeira vez a marca dos 200 mil; o dólar caiu mais de 4%, abaixo de R$ 5; e o DI para janeiro de 2033 recuou cerca de 1,3 ponto percentual.
A aposta era a de que uma troca de governo abriria espaço para um ajuste fiscal, o que derrubaria os juros longos. O ponto de partida explica a fúria: em levantamento do Itaú com 111 gestoras feito em 3 de outubro, 91% esperavam Lula à frente no primeiro turno e apenas 9% previam Flávio na liderança. A eleição contrariou quase todo o mercado.
Na esteira da aposta, bancos e casas de análise montaram o "kit Flávio" — Petrobras (PETR4), Cosan (CSAN3), XP (XPBR31), BTG Pactual (BPAC11) e B3 (B3SA3) entre os favoritos. A BlackRock ampliou participações no Bradesco e no Banrisul em 13 de outubro. O Bradesco chegou a subir 22% após o primeiro turno.
O trade também deixou marcas em instrumentos mais sofisticados. Em setembro, um investidor comprou cerca de 500 mil opções de compra do EWZ com preço de exercício de US$ 43 e vendeu praticamente a mesma quantidade de calls a US$ 45, com vencimento em 20 de novembro — uma estrutura que custou cerca de R$ 64 milhões e poderia render perto de R$ 500 milhões se o ETF superasse o segundo strike. Antes do segundo turno, as posições em aberto nesses dois strikes somavam 818 mil e 670 mil contratos.
O ritmo da aposta já havia desacelerado antes da votação. Em 13 de outubro, com pesquisas mais apertadas e dúvidas sobre a execução do ajuste fiscal, o "trade Flávio" perdeu parte do impulso: o DI para janeiro de 2029 passou de 12,221% para 12,330%.
O que se espera nesta segunda-feira
A leitura entre gestores é de um dia difícil. "As ações domésticas boas, como shoppings e empresas de energia, devem cair uns 20% a 30%. Varejistas, 60%. Bancos, 15%", disse um gestor de fundos de ações. Outro resumiu o problema de liquidez: "Num primeiro momento, não tem comprador. Talvez algum gringo, mas será um dia muito difícil. A Bolsa deve devolver toda a alta desde o primeiro turno e cair um pouco mais."
Sem comprador marginal à vista, parte do mercado trabalha com a hipótese de acionamento do circuit breaker — o mecanismo que interrompe as negociações quando o Ibovespa cai 10% frente ao fechamento anterior, por 30 minutos; 15%, por uma hora; e 20%, por prazo definido pela B3.
Nos juros, uma pesquisa do Citi divulgada na sexta-feira mostrou que a maioria dos gestores projetava abertura superior a 100 pontos-base na taxa do DI de janeiro de 2029 caso Lula vencesse.
O pano de fundo que o mercado cobra
Por trás do tombo está a agenda fiscal. O mercado vinha precificando a expectativa de contenção de gastos e de queda dos juros longos; o Brasil deve encerrar o ano com dívida pública equivalente a cerca de 83% do Produto Interno Bruto, com a Selic em 14% ao ano.
O EWZ despencando quase 20% na noite de domingo é a primeira resposta a essa conta. Esta segunda-feira (26) mostra se ela se confirma no pregão — e se o quarto mandato de Lula começa, na bolsa, com o maior tombo de abertura de um governo recém-reeleito.
Foto: Bear Bull Traders, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
Fontes
- Investidor10 — contratos perpétuos de EWZ, Petrobras, Vale e Itaú na Hyperliquid
- G1 e Poder360 — EWZ no after-hours e fechamento de sexta-feira
- Guia do Investidor, Terra e Traders Union — ADRs, CME e dólar implícito
- NeoFeed, Veja e Money Times — histórico do "trade Flávio", fluxo de gestoras e estruturas de opções
- InfoMoney e GZH — projeções de gestores para o pregão de segunda-feira