A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à presidência — uma virada de 6,6 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno que contrariou pesquisas e apostas do mercado — teve efeito imediato nos ativos brasileiros. No after-hours do domingo (25), o iShares MSCI Brazil (EWZ) caía quase 20%, a US$ 34,23, e o real despenca mais de 11% no contrato futuro da CME em Chicago.

Os números da noite

  • Real futuro (CME/Chicago): contrato para novembro cai 10,59%; dólar implícito para segunda-feira (26) apontado em R$ 5,50 por volta das 21h50
  • EWZ (NYSE, after-hours): -19,63%, a US$ 34,23 — revertendo boa parte da valorização registrada após o primeiro turno
  • Nomura NF Ibovespa Link ETF (Tóquio): -12,75%, para 285,3 ienes, nos primeiros negócios asiáticos
  • Capital Economics: projeta queda de 5% a 10% no Ibovespa na abertura de segunda-feira

Por que o mercado reage assim

A leitura central dos analistas é que o mercado estava posicionado para um resultado diferente. Com Flávio Bolsonaro à frente nas pesquisas e no primeiro turno, investidores haviam precificado uma mudança relevante na condução da política econômica — ajuste fiscal mais agressivo, redução do prêmio de risco na curva de juros e maior alinhamento com a política externa dos EUA.

"Diferente dos cenários de vitória de Bolsonaro — onde quanto maior a vantagem, melhor andariam os ativos —, amanhã devemos passar por um ajuste severo de preços na abertura", afirma Felipe Balassiano, head de multimercados do ASA. "Esperamos forte volatilidade, com pressão de queda na bolsa, depreciação do real e abertura das curvas de juros, até que o novo governo reforce o compromisso com a responsabilidade fiscal."

O ponto central: política fiscal

Para Walter Maciel, CEO da AZ Quest, o debate não é sobre quem está no Planalto em si — é sobre a trajetória das contas públicas.

"Minha preocupação era principalmente com a nossa política fiscal. A preocupação realmente é com o crescimento da dívida pública, que foi de mais de 11 pontos percentuais nesses quatro anos."

Maciel faz uma analogia direta: "A taxa de juros é a febre, não é a infecção que causa a febre. Não adianta dar dipirona, porque você tem que dar antibiótico. E meu antibiótico é colocar o fiscal em equilíbrio." Ele defende que Lula surpreenda o mercado com um discurso diferente do adotado na campanha — "tão surpreendente quanto o resultado desse segundo turno".

O que esperar da abertura (segunda-feira, 26/10)

Três cenários dominam a leitura dos especialistas consultados:

  • Marcos Weight, diretor de Tesouraria da Travelex Bank: dólar à vista tende a abrir já acima de R$ 5,30; o Banco Central deve intervir com leilões de venda de moeda e também na curva de juros futuros (DIs).
  • Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research: volatilidade alta no câmbio e nos juros; real em torno de R$ 5,40 "de forma sustentada" ao longo de 2027; inflação mais persistente e menos espaço para o BC cortar juros.
  • William Castro, estrategista-chefe da Avenue: "Ainda é cedo para dimensionar esse movimento porque os mercados estão fechados e os contratos futuros têm liquidez menor, mas os sinais apontam para uma queda expressiva."

O contexto que explica a magnitude

A reação não é apenas sobre o resultado eleitoral em si — ela reflete três fatores acumulados ao longo da campanha:

  1. Gastos de campanha: Lula elevou gastos durante a disputa, sinalizando disposição fiscal para estender programas sociais no novo mandato.
  2. Congresso adversário: com PL e bloco de centro numericamente superiores na Câmara (ver artigo: "Lula reeleito: maioria da oposição"), qualquer projeto fiscal relevante dependerá de negociação — o que adiciona risco de execução à agenda econômica.
  3. Dependência do fluxo estrangeiro: em 2026, boa parte da valorização da bolsa brasileira veio de capital externo. A reversão dessa expectativa — combinada com a incerteza sobre política externa ("quintal de ninguém") — explica por que o EWZ cai mais rápido e mais forte que o Ibovespa interno.

O que observar na segunda-feira

  • Abertura do dólar à vista: acima ou abaixo de R$ 5,30 define se a intervenção do BC é suficiente para segurar a moeda
  • Movimento dos DIs (DIs de curto e médio prazo): abertura da curva sinaliza estresse no mercado de títulos públicos — o canal mais direto pelo qual o risco fiscal atinge o custo de capital das empresas
  • Volume em EWZ: se a queda for acompanhada de volume elevado, é ajuste estrutural; se for liquidez baixa com poucos contratos, pode reverberar parcialmente na abertura regular da B3
  • Declarações do novo governo nas primeiras 48h: Maciel e Sung convergem no mesmo ponto — um sinal claro de compromisso fiscal (mesmo que verbal) nos primeiros dias de mandato é o fator que mais pode reverter a pressão negativa sobre os ativos brasileiros
"Se ele tiver noção do tamanho do buraco ou uma opinião parecida com a nossa, deveria começar hoje com um discurso tão surpreendente quanto o resultado desse segundo turno." — Walter Maciel, CEO da AZ Quest

Este artigo resume as coberturas do Money Times sobre a reação dos mercados à reeleição de Lula em 25 de outubro de 2026. As projeções citadas pertencem às instituições consultadas e não constituem recomendação de investimento.