O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou às 21h08 deste domingo (25) a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o quarto mandato, com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). Em poucas horas, chefes de Estado e de governo de quatro continentes já haviam se manifestado — de presidentes de esquerda a governantes de direita, num arco que foi de Cuba ao Canadá.
A rapidez das felicitações latino-americanas foi tratada no Palácio do Planalto como reconhecimento do peso regional do Brasil. A exceção foram os dois aliados mais próximos de Flávio Bolsonaro no exterior: Javier Milei, da Argentina, permaneceu em silêncio, e Donald Trump, dos Estados Unidos, não apenas deixou de parabenizar o presidente brasileiro como questionou publicamente o resultado.
Quem parabenizou Lula
A primeira leva veio da vizinhança. Os presidentes do Paraguai e do Panamá foram alguns dos mais rápidos:
- Santiago Peña (Paraguai): "Parabéns, Lula, por sua eleição como presidente do Brasil. Saúdo o povo brasileiro por esta grande jornada democrática. Paraguai e Brasil compartilham uma agenda comum de integração e desenvolvimento."
- José Raúl Mulino (Panamá): "Parabenizo o povo brasileiro por este dia democrático e, especialmente, o presidente Lula pela vitória! Continuaremos trabalhando juntos por nossos países."
- Claudia Sheinbaum (México): "Viva a democracia, o povo brasileiro venceu. Parabéns, presidente Lula!"
- Yamandú Orsi (Uruguai): telefonou ao brasileiro e publicou que o parabenizou "pela vitória e pela festa democrática que um processo eleitoral representa".
- Rodrigo Paz (Bolívia): "Bolívia e Brasil são países vizinhos e irmãos, unidos por uma história e desafios comuns."
- Miguel Díaz-Canel (Cuba): falou em "vitória histórica" que garante "a continuidade do caminho de paz, soberania e justiça social".
- Keiko Fujimori (Peru): lembrou que os dois países estão às vésperas do bicentenário de suas relações diplomáticas.
- Daniel Noboa (Equador): "Nossa região tem inimigos em comum, desafios compartilhados e muito a ganhar quando trabalhamos juntos."
- José Antonio Kast (Chile): telefonou a Lula e falou em fortalecer "a integração econômica e o combate ao crime organizado na região".
- Irfaan Ali (Guiana) também se manifestou.
O detalhe político é que boa parte dessa lista é de centro-direita ou de direita — Kast, Peña, Noboa e Fujimori —, governantes que apoiaram ou se alinharam a Flávio Bolsonaro na campanha. A leitura no Planalto, segundo relatos publicados pela imprensa, é que a agilidade das felicitações ocorreu "exatamente como o esperado" e sinaliza que o isolamento do Brasil na região não se confirmou.
Das Américas ao Canadá
Fora da região, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi um dos que se manifestaram ainda na noite de domingo: "As relações entre o Canadá e o Brasil avançaram graças à nossa parceria. Vamos aproveitar esta oportunidade para fortalecê-las ainda mais, juntos, criando novas oportunidades comerciais promissoras, protegendo o meio ambiente."
Nos Estados Unidos, sem nota da Casa Branca, as manifestações vieram de nomes da oposição democrata — o senador Bernie Sanders ("Lula defendeu os trabalhadores e a democracia no Brasil — e continuará a fazê-lo nos próximos quatro anos") e o governador da Califórnia, Gavin Newsom.
Entre ex-presidentes, o chileno Gabriel Boric escreveu: "Que alegria imensa o povo brasileiro acaba de nos dar! Obrigado, presidente Lula, por seu compromisso com a humanidade." O colombiano Gustavo Petro foi mais longe: "O fascismo foi detido na América Latina, no Brasil." Da Argentina, a ex-presidente Cristina Kirchner comparou o dia ao 17 de Outubro e Alberto Fernández disse compartilhar "a tristeza de vê-lo preso e a alegria de vê-lo livre".
A União Europeia e a União Africana, além de líderes europeus como o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, ainda não haviam se manifestado até o fim da noite de domingo — a expectativa era de pronunciamentos a partir de segunda-feira (26).
Trump questiona o resultado
O presidente dos Estados Unidos não felicitou Lula e foi além: contestou o resultado. Segundo relato da agência EFE, Trump comparou a eleição brasileira à americana de 2020, quando perdeu para Joe Biden.
"Acabaram de aplicar no Brasil o manual de Joe Biden. Bolsonaro tinha uma grande vantagem no primeiro turno e era o claro favorito para vencer o segundo. Mas os comunistas não largam o poder depois que o conseguem", afirmou.
Trump não apresentou provas de irregularidades. A declaração veio depois de meses de atritos entre os dois governos — tarifas de até 37,5% sobre parte das exportações brasileiras, sanções a autoridades brasileiras e uma campanha em que o próprio Flávio Bolsonaro fez da proximidade com a Casa Branca uma bandeira. O TSE havia confirmado o resultado horas antes, e o presidente do tribunal, ministro Kássio Nunes Marques, afirmou ter "absoluta segurança de todo o processo eleitoral".
O Planalto minimiza
A eventual recusa de Washington em reconhecer a reeleição é tratada pelo governo brasileiro como fator secundário. Uma fonte do Planalto disse que o não reconhecimento americano "é o de menos", uma vez que o Brasil confia "na solidez e na resiliência de suas próprias instituições democráticas". O mesmo raciocínio se aplica à Argentina: o silêncio de Milei já era cenário esperado, dado o histórico de ataques do argentino a Lula e ao processo eleitoral brasileiro.
O ambiente com Washington segue complexo. Ainda que falte comprovação definitiva de interferência americana no pleito por meio de uma aliança com a Meta — acusada na Justiça Eleitoral de manipular algoritmos em desfavor de Lula —, o Planalto avalia que as investidas ultrapassam as redes sociais e incluem as barreiras tarifárias.
O que Lula disse
Em seu primeiro discurso após a confirmação, por volta das 22h15, num hotel em São Paulo, e depois na Avenida Paulista, Lula agradeceu nominalmente ao deputado André Janones (Rede-MG) pela mobilização digital e prometeu mudar o jeito de governar.
"A gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro através de plataformas digitais, que nós teremos que regular. Não é possível que a gente não tenha consciência que o crime no mundo digital tem que ser tratado como o crime na vida real", disse. "Não podemos ter empresas monstruosas ganhando bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país. Essa eleição foi uma derrota do negacionismo e da mentira."
O presidente reeleito também defendeu o investimento em matemática e engenharia para que o Brasil desenvolva sua própria inteligência artificial, sem depender de tecnologia "chinesa e americana", e afirmou que vai trabalhar com o Congresso mais à direita eleito em outubro: "Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que irei trabalhar."
Foto: Lula Oficial, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Fontes
- G1 — repercussão internacional e mensagens dos líderes, com citações integrais
- Reuters, InfoMoney e Gazeta do Povo — felicitações de chefes de Estado
- Brasil 247, Times Brasil/CNBC e EFE — declaração de Trump sobre o "manual de Joe Biden"
- Brasil 247 — avaliação do Palácio do Planalto sobre o não reconhecimento
- UOL, Exame e BBC News Brasil — discurso da vitória e regulação das plataformas digitais