A Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, investiga nesta quinta-feira (29) um incidente de segurança que, se confirmado como invasão, será o maior ataque já registrado no setor cripto. Análises on-chain apontam saídas de carteiras ligadas à exchange em uma faixa que vai de US$ 3 bilhões a US$ 5,8 bilhões, e as duas maiores emissoras de stablecoin do mercado, Tether e Circle, congelaram parte dos recursos.

A empresa não confirmou o ataque nem qualquer perda para clientes. Em publicação no X, a Binance afirmou que suas equipes de segurança "estão revisando todas as informações relevantes com urgência" e que atualizará o mercado pelos canais oficiais assim que houver dados verificados.

Os números divergem porque a apuração está em curso

Não há um valor único de prejuízo — cada empresa de análise chegou a um montante diferente, com metodologias e horários distintos:

  1. A Hacken falou em cerca de US$ 3 bilhões em saídas "excepcionalmente elevadas" de bitcoin, ether, USDT, USDC, XRP e solana para endereços novos, e ressaltou que, naquele momento, nenhum hack havia sido confirmado.
  2. A Blockaid identificou aproximadamente US$ 3,3 bilhões em transferências suspeitas envolvendo carteiras ligadas à Binance, em três redes: Ethereum, Arbitrum e Avalanche.
  3. O levantamento on-chain publicado pela Decrypt chegou a US$ 5,57 bilhões: US$ 3,51 bilhões em Ethereum, US$ 1,44 bilhão em 18.270 bitcoins e US$ 630 milhões na rede Tron.
  4. O The Block reportou cerca de US$ 3,55 bilhões em transferências recebidas por uma carteira não identificada, com quase US$ 900 milhões movimentados depois para outras carteiras. Conor Grogan, diretor de produto da Coinbase, citado pela reportagem, estimou o total em até US$ 5,8 bilhões.
  5. A Arkham Intelligence identificou carteiras etiquetadas como "binance-hacker-1029" com aproximadamente US$ 5,84 bilhões em ativos. O número é o saldo dessas carteiras, não uma estimativa confirmada do total roubado.

A Livecoins, citando a Hacken, detalhou algumas transferências: 28 mil ETH em uma única operação, cerca de 16.690 BTC espalhados em quatro transações, 780 milhões de USDC, 612 milhões de USDT na rede Tron, 185 milhões de XRP e 965 mil SOL.

A mecânica: delegação EIP-7702 e um endereço financiado por Tornado Cash

O rastro técnico começou a ser reconstruído por pesquisadores de blockchain. Segundo a Cointelegraph, as primeiras suspeitas vieram do pesquisador Spreek, que relatou a transferência de ativos de uma carteira ethereum ligada à Binance para um endereço recém-criado por meio de uma chamada de contrato supostamente financiada pelo Tornado Cash, misturador que embaralha o rastro de pagamentos em cripto.

Três minutos antes da primeira saída, uma carteira abastecida via Tornado Cash submeteu uma delegação EIP-7702 em uma carteira quente (hot wallet) da Binance, conforme a Decrypt. Esse recurso do Ethereum permite que uma carteira comum execute código de contrato inteligente.

A EIP-7702 pode transformar a própria carteira no dispositivo de varredura. Uma carteira etiquetada como Binance moveu 167.464 ETH e 63 tokens, incluindo 1,615 bilhão de USDT, apenas 3 minutos e 24 segundos depois de uma delegação assinada ser instalada. Isso é ruim.

A citação acima é de Odysseas Lamtzidi, fundador da Phylax Systems. A primeira transação em Ethereum, às 20h24 UTC (17h24 em Brasília), enviou 167.464 ETH mais 63 transferências de tokens — entre elas 1,615 bilhão de USDT — para um endereço novo, segundo o Etherscan.

Tether e Circle congelaram US$ 2,36 bilhões

O congelamento de stablecoins foi o principal freio ao prejuízo — um recurso que permite às emissoras imobilizar tokens roubados antes que sejam convertidos.

  • A Tether congelou mais de US$ 1,567 bilhão em USDT, segundo o CEO Paolo Ardoino: "Proteger a indústria e nossos parceiros é a nossa prioridade."
  • A Circle bloqueou mais de US$ 800 milhões em USDC, em coordenação com as autoridades, segundo o CEO Jeremy Allaire.
  • Somados, os bloqueios chegam a US$ 2,36 bilhões, conforme a Cointelegraph.

Os primeiros relatos citavam valores menores — a Decrypt noticiou 975,1 milhões de USDT e 823 milhões de USDC no principal endereço receptor, cerca de US$ 1,8 bilhão. O ex-CEO da Binance, Changpeng Zhao, citou US$ 971 milhões em USDT e US$ 823 milhões em USDC ao confirmar que a corretora atravessava um problema de segurança.

O que a Binance e seus executivos dizem

A exchange sustenta que os saques seguem funcionando — a página de status da Binance mostrava a operação normal de retiradas durante a investigação. A cofundadora Yi He afirmou que a empresa está apurando o caso e pediu que usuários desconfiem de links e mensagens não oficiais.

Changpeng Zhao, que deixou o comando da companhia, creditou a rapidez de Tether e Circle e tentou tranquilizar clientes:

Não administro mais a Binance, mas como acionista, espero que todos os fundos dos usuários sejam integralmente cobertos.

O mercado cripto sentiu

A Decrypt registrou o bitcoin abaixo de US$ 79 mil, o BNB em queda de cerca de 7% e o monero — buscado como ativo de privacidade — subindo perto de 6%. A Livecoins mostrava o BNB a R$ 3.816,77, baixa de 5%, com BTC a R$ 425.706, ether a R$ 12.263, solana a R$ 523,20 e XRP a R$ 6,723.

O dia também teve um segundo incidente de segurança: a Polymarket, plataforma de mercados de previsão, pausou as negociações após uma exploração de US$ 2,65 milhões e disse que um provedor terceiro foi comprometido, segundo o The Block. O caso ocorre no mesmo mês em que a polícia de Singapura apontou carteiras de hardware Ledger adulteradas e prejuízo de US$ 2,7 milhões.

Fonte: Decrypt, Cointelegraph, The Block, Livecoins e Arkham Intelligence (29 de outubro de 2026).

Foto: FlippyFlink, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.