A taxa básica de juros pode permanecer em dois dígitos pelo menos até 2028, diante da dificuldade de controlar as contas públicas e estabilizar a trajetória da dívida. A avaliação é de Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio-diretor da Tendências Consultoria, em entrevista ao videocast Stock Pickers, do InfoMoney, publicada no domingo (1º).

Para Loyola, a política monetária não tem capacidade de resolver sozinha os desequilíbrios da economia brasileira.

Não adianta você ter uma situação fiscal horrível, terrível, e o Banco Central querer segurar a economia e o tranco todo na taxa de juros.

O círculo vicioso entre juros e dívida

O economista descreve o mecanismo que, na sua avaliação, mantém o prêmio de risco elevado e trava uma queda sustentável da Selic: os próprios juros altos encarecem a dívida, que cresce sem contrapartida de controle do resultado primário, o que aumenta a desconfiança dos investidores e pressiona ainda mais as taxas.

Se cria um círculo vicioso: os juros mais altos geram um aumento da dívida pública; o aumento da dívida pública não tem nenhuma contrapartida do ponto de vista de controle do resultado primário; isso aumenta o prêmio de risco, pede-se mais juros, enfim, vira um círculo vicioso, uma bola de neve.

Pressão sobre o Banco Central deve crescer

Loyola prevê que a autoridade monetária enfrentará cobranças crescentes para cortar juros, principalmente se a atividade econômica perder força — cenário em que, sem ajuste fiscal, o Banco Central fica isolado na tarefa de segurar a inflação.