A China suspendeu as importações de carne bovina do frigorífico da MBRF (MBRF3) em Promissão (SP), identificado pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) 2543. A medida entrou em vigor em 22 de outubro e consta do Ciferquery SingleWindow, sistema de registro de empresas importadoras de alimentos gerido pela Administração Geral de Alfândegas da China (GACC), responsável pelas liberações e suspensões de importadores.
O caso foi noticiado pelo Broadcast Agro, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, e publicado pelo Estadão Conteúdo nesta terça-feira (27), depois de o Valor e o Globo Rural terem apurado a suspensão junto à GACC. É a segunda vez em poucos meses que uma planta brasileira habilitada ao mercado chinês entra na lista de suspensões — e a primeira que atinge uma unidade da MBRF.
O que a China informou — e o que não informou
O comunicado oficial chinês não detalha as razões da medida. Fontes consultadas pelo Broadcast Agro apontaram que a suspensão ocorreu após a detecção consecutiva de resíduos de fluazuron em cargas exportadas — um acaricida proibido na China. A GACC não informa o motivo da suspensão no site.
Não há, até aqui, embargo ao Brasil: a suspensão é restrita à planta de Promissão, e o país mantém dezenas de unidades habilitadas a exportar carne bovina para o mercado chinês.
A resposta da MBRF
Em nota, a companhia afirmou que tomou conhecimento da medida e já está redirecionando os volumes de produção para o seu complexo industrial de Várzea Grande (MT), que tem "plena capacidade" para atender a demanda do mercado chinês. A empresa também informou contar com outros quatro complexos habilitados para o mercado chinês: três no Uruguai e um na Argentina.
"Estão mantidas todas as demais habilitações da unidade de Promissão, incluindo para os Estados Unidos, seu principal mercado de exportação."
A MBRF acrescentou que "abriu diálogo com as autoridades competentes, confiante na robustez de seus processos". Procurada, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne Bovina (Abiec) informou que ainda não foi comunicada oficialmente sobre a suspensão.
Não é um caso isolado
Além da planta de Promissão, outras cinco unidades frigoríficas brasileiras habilitadas a exportar para a China estão suspensas pelo país, segundo a GACC:
- uma da Prima Foods, em Araguari (MG);
- uma da Frialto, em Matupá (MT);
- uma da JBS, em Vilhena (RO);
- uma da JBS, em Pontes e Lacerda (MT);
- uma da Sulbeef (Frigosul), em Várzea Grande (MT).
Em episódios anteriores, a China interrompeu compras de plantas de diferentes empresas alegando a identificação de resíduos de substâncias proibidas no país — o mesmo tipo de justificativa que fontes do setor atribuem agora ao caso de Promissão.
O que observar
- Habilitação suspensa não é embargo. O bloqueio é de planta (SIF) e não de país: a perda depende de quanto da produção da unidade era destinada à China e de quão rápido os volumes migram para outras plantas do grupo.
- Redirecionamento tem custo logístico. Mover a carga de São Paulo para o complexo de Várzea Grande (MT) e para unidades no Uruguai e na Argentina altera frete e prazo — a companhia não informou o volume afetado.
- O motivo importa para a duração. Suspensões por resíduo costumam ser resolvidas com ajuste de protocolo e reinspeção, mas o histórico mostra que o prazo varia e não é divulgado com antecedência.
- Exportação para os EUA segue. A MBRF afirma que as demais habilitações da unidade estão mantidas, incluindo o mercado americano, apontado pela empresa como seu principal destino de exportação.
A GACC não publica prazo para reavaliação, e a Abiec disse que só se manifestará após ser comunicada oficialmente.
Como funciona a habilitação para o mercado chinês
No sistema chinês, a autorização para exportar carne é concedida planta a planta, e não ao país: cada frigorífico recebe um registro próprio, identificado pelo número do Serviço de Inspeção Federal (SIF) no caso brasileiro, depois de auditoria da GACC. É por isso que uma suspensão como a de Promissão atinge apenas aquela unidade — as demais habilitações da mesma empresa, em outras cidades ou países, seguem valendo.
O registro aparece no Ciferquery SingleWindow, a base pública da alfândega chinesa para importadores de alimentos. Na prática, é o sistema que compradores e tradings consultam antes de fechar contrato: uma planta suspensa desaparece da lista de origens autorizadas, mesmo sem qualquer comunicado formal à empresa ou à entidade setorial.
Foto: Carlos Ebert, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.