O contrato de minério de ferro mais negociado na Bolsa de Mercadorias de Dalian (DCIOcv1) fechou o pregão diurno desta terça-feira (27) com queda de 0,9%, a 664 yuans (US$ 99,55) por tonelada, depois de tocar 660 yuans — o menor patamar desde 24 de setembro de 2024. A referência para novembro na Bolsa de Cingapura (SZZFX6) recuava 0,93%, a US$ 89,65 por tonelada, após uma mínima de US$ 89,25, a mais baixa desde 23 de setembro de 2024.
No mesmo dia, o Goldman Sachs divulgou relatório com a expectativa de lucros da Vale (VALE3) para o terceiro trimestre, que a mineradora divulga na quinta-feira (29), após o fechamento do mercado. O banco cortou suas projeções de lucro em aproximadamente 15% no segundo semestre de 2026 e em 9% para 2027.
Por que o minério caiu
A demanda por aço enfraqueceu sazonalmente, com margens persistentemente estreitas limitando a produção de metal quente, enquanto a oferta de minério deve aumentar no quarto trimestre, segundo Jiang Mengtian, analista da consultoria Horizon Insights. A produção de metal quente costuma funcionar como indicador da demanda por minério, e o consumo de aço normalmente se contrai no fim do ano, quando as baixas temperaturas no norte da China dificultam as obras ao ar livre.
Do lado das usinas, a postura é de cautela:
- as siderúrgicas se mostraram reticentes em repor matérias-primas, em meio aos altos estoques de minério nos portos e à expectativa de mais oferta, segundo Chu Xinli, analista da corretora China Futures;
- analistas da BMI revisaram para baixo a previsão de preço médio do minério em 2026, de US$ 99 para US$ 95 por tonelada, citando embarques e produção estáveis ou maiores entre as grandes mineradoras.
O corte do Goldman para a Vale
O relatório do banco aponta um cenário mais desafiador para a mineradora nos próximos trimestres, com pressão tanto do lado dos custos quanto das receitas:
- Custos: preços mais elevados do diesel e do frete encarecem a produção, embora parte do impacto possa ser compensada pela valorização do dólar frente ao real;
- Receita: preços de referência mais baixos para o minério e maior participação de volumes de menor margem devem reduzir a rentabilidade;
- EBITDA: a expectativa para o terceiro trimestre de 2026 é de US$ 3,3 bilhões, queda de 20% em relação ao trimestre anterior, refletindo menor produção de minério, preços realizados mais fracos e custos maiores de petróleo e transporte;
- Reservas: a exaustão acelerada das reservas de Serra Norte e a menor rentabilidade das vendas de minério de terceiros podem limitar o crescimento dos volumes;
- Metais básicos: os negócios de níquel e cobre devem seguir desafiadores, com preços mais baixos, custos mais altos e produção reduzida no caso do cobre.
Como a ação reagiu
Os papéis da Vale caíam 2,08%, a R$ 63,06, por volta das 12h19 desta terça-feira, segundo o InfoMoney, depois de uma alta no pregão anterior. O movimento é intradiário e não representa o fechamento do dia. A mineradora também acompanha o dólar, que recuava a R$ 5,35 no mesmo horário.
O que observar até quinta
- Resultado do 3T26 na quinta (29), após o fechamento. Vale, Gerdau, Usiminas e outras nove empresas divulgam balanços nesta semana, segundo o Money Times.
- Guidance de volumes e custos. O ponto central do relatório é a combinação de preços realizados menores com custos de diesel e frete maiores — a resposta da companhia a esse aperto define a leitura do papel.
- Preço do minério na China. Sem recuperação da demanda por aço, o piso de US$ 95 por tonelada projetado pela BMI muda a base de receita de todo o setor, não só da Vale.
- Dólar. A valorização do real frente ao dólar reduz o efeito compensador que o câmbio tem sobre os custos em reais.
As referências de preço que o mercado usa
Três cotações organizam a leitura do minério de ferro no dia a dia:
- Dalian (DCIOcv1) — contrato futuro mais negociado na China, referência em yuans e principal termômetro da demanda siderúrgica local;
- Singapura (SZZFX6) — referência em dólar, usada por quem opera fora da China continental e por tradings;
- Índice de portos (Qingdao) — preço à vista do minério entregue no porto, base para contratos físicos.
Quando as referências futuras caem juntas, como nesta terça em Dalian e em Cingapura, o sinal é de fraqueza de demanda e não de ruído de um contrato isolado. O mercado brasileiro acompanha especialmente a cotação em dólar, porque é ela que define a receita de exportação das mineradoras — enquanto os custos de produção, em boa parte, são em reais.
Foto: Josue Marinho, via Wikimedia Commons (CC BY 3.0).
Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.