A Raízen (RAIZ4) reúne os acionistas nesta sexta-feira (30) em assembleia geral extraordinária e em assembleia especial de preferencialistas para votar as medidas que destravam a reorganização societária prevista em sua recuperação extrajudicial — a maior da história corporativa do país. A votação ocorre depois de a companhia equacionar o principal entrave tributário do processo, na quarta-feira (28).

Em paralelo, a dívida da companhia começou a atrair novos interessados. O fundo soberano de Abu Dhabi Mubadala e a FS — Fueling Sustainability, uma das maiores produtoras de etanol de milho do Brasil, avaliam comprar créditos hoje nas mãos de credores da Raízen, segundo pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pela Bloomberg. A FS contratou o Morgan Stanley para assessorá-la em uma eventual aquisição.

As conversas estão em estágio preliminar e não há garantia de que resultem em negócio. Morgan Stanley, IG4, FS e Raízen não comentaram o assunto.

O que a assembleia vota

Os acionistas decidem mudanças que permitem emitir os papéis destinados aos credores e receber os aportes previstos no plano:

  1. Ampliação do limite do capital autorizado — a companhia detalhou um aumento de capital de até R$ 39,8 bilhões;
  2. Criação de uma nova classe de ações preferenciais;
  3. Instituição de certificados compostos por ações, as chamadas units;
  4. Substituição do conselho de administração;
  5. Redução do capital social em até R$ 35 bilhões, mediante a entrega de valores mobiliários da Raízen Energia aos acionistas — o mecanismo que separa os negócios.

A reorganização prevê duas companhias com estruturas de capital independentes. A Raízen Combustíveis concentrará a distribuição de combustíveis e lubrificantes da marca Shell, enquanto a Raízen Energia reunirá as operações de açúcar, etanol e bioenergia. A efetivação depende de condições como a conclusão da capitalização e a listagem da Raízen Energia no Nível 2 da B3. A companhia também tem recebido propostas de aquisição dos ativos de distribuição, sem decisão tomada até aqui.

Credores podem ficar com mais de 80% da empresa

No plano homologado pela Justiça de São Paulo em 30 de julho, os credores aceitaram converter parte do que têm a receber em ações — operação que pode lhes garantir mais de 80% do capital da companhia. É justamente essa conversão que explica a pressa de Mubadala, FS e IG4 em adquirir os créditos antes que eles virem participação acionária.

A gestora IG4 Capital, especializada em *special situations*, chegou a estudar comprar créditos em volume suficiente para assumir o controle da Raízen; agora, segundo a apuração, seu foco está apenas nas dívidas ligadas à divisão de açúcar e etanol. Também já manifestaram interesse nas dívidas as gestoras Mapa Capital, Makalu Partners, Geribá e Laplace. Nos últimos dias, a SPX elevou sua participação para 5,25% das ações preferenciais.

O acordo tributário que destravou o processo

A celebração da transação com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e a Receita Federal era uma das condições para implementar a reestruturação financeira. O acordo abrange R$ 22,4 bilhões em débitos com a União: R$ 16,7 bilhões de responsabilidade econômica da companhia e R$ 5,7 bilhões dos acionistas controladores.

Sobre a parcela atribuída à Raízen, foram concedidos descontos de R$ 8,5 bilhões em multas e juros. O saldo de R$ 8,2 bilhões será quitado com R$ 5,7 bilhões em prejuízos fiscais e um pagamento à vista de R$ 2,5 bilhões.

A maior reestruturação corporativa do país

O plano de recuperação extrajudicial abrange aproximadamente R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras sem garantia. Contou com adesão de 81,6% dos credores sujeitos e combina conversão de créditos em ações, emissão de novos títulos de dívida e uma injeção de capital de R$ 3,5 bilhões a R$ 4 bilhões. A Shell se comprometeu a aportar R$ 3,5 bilhões, e a Aguassanta Participações, da família de Rubens Ometto, poderá participar com outros R$ 500 milhões.

A companhia, controlada em conjunto pela Cosan (CSAN3) e pela Shell, atribui a crise a uma combinação de decisões estratégicas malsucedidas, juros elevados e safras mais fracas. Para reduzir a alavancagem, tem acelerado a venda de ativos e já teve a nota rebaixada por agências de risco ao longo do ano.

Para quem tem RAIZ4, a assembleia desta sexta-feira é uma etapa importante para acomodar os credores na nova estrutura acionária, mas a conclusão ainda depende do cumprimento das demais condições do plano — e a fatia dos atuais acionistas no capital tende a ser fortemente diluída pela conversão de dívida em ações.

Fonte: Valor Econômico, Investidor10 e Bloomberg (29 e 30 de outubro de 2026).

Foto: Paul R. Burley, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.