O Banco Central do Paraguai (BCP) iniciou nesta terça-feira (3) o processo de resolução e de intervenção no Ueno Bank, quinto maior banco privado do país, depois que uma auditoria constatou que o índice de solvência da instituição caiu abaixo de 50% do mínimo exigido por lei. A decisão foi aprovada por unanimidade pela diretoria da autarquia na segunda-feira (2) e, no mesmo dia, o presidente do banco central paraguaio, Carlos Carvallo, apresentou sua renúncia.
A medida atinge cerca de 3 milhões de clientes — aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai — e trava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em verbas públicas depositadas na instituição. O banco pertence ao Grupo Vázquez, conglomerado empresarial paraguaio com laços históricos com o alto escalão do governo de Santiago Peña.
O que a auditoria encontrou
Segundo o comunicado oficial do BCP, a insuficiência de capital resultou de "ajustes realizados em suas demonstrações financeiras durante o processo de regularização". A auditoria também identificou empréstimos irregulares a empresas dos próprios donos do banco.
- O índice de solvência ficou abaixo de 50% do mínimo legal;
- A intervenção foi aprovada por unanimidade pela diretoria do BCP em 2 de novembro;
- A Superintendência de Bancos nomeou interventores para assumir a gestão, verificar a situação patrimonial e preservar os ativos restantes.
Como funciona a resolução
O mecanismo acionado está previsto na Lei nº 2.334/03 e não equivale a uma falência judicial comum. Na resolução, os interventores assumem o comando da instituição e o regulador pode transferir os saldos dos correntistas para bancos estáveis antes de liquidar o patrimônio remanescente para pagar credores.
Na prática, é o desenho que permite proteger o depositante comum mesmo com o banco insolvente — e é o que explica por que o governo paraguaio insiste que o sistema financeiro do país segue estável.
O Banco Central do Paraguai (BCP) determinou por unanimidade, mediante a correspondente resolução de sua Diretoria datada de 2 de novembro de 2026, iniciar o procedimento de resolução do ueno bank, após constatar uma insuficiência em seu índice de solvência abaixo de cinquenta por cento (50%) do mínimo requerido, como consequência de ajustes realizados em suas demonstrações financeiras durante o processo de regularização. A medida busca atender sua situação de maneira ordenada, proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro.
O tamanho do buraco
Ao fim de junho deste ano, o patrimônio líquido do Ueno era de US$ 401 milhões, na quinta maior posição entre os bancos privados do Paraguai. O número de clientes beira os 3 milhões.
O problema é a concentração de dinheiro público. Segundo a agência Bloomberg, os depósitos do governo no banco dispararam desde que Peña assumiu o cargo, em 2023, para cerca de 5 trilhões de guaranis (US$ 869 milhões) — o equivalente a 29% dos depósitos da instituição no fim de junho. O Ueno também é um dos principais patrocinadores da Copa Sul-Americana, torneio que tem o Atlético Mineiro na final contra o Boca Juniors.
Fundo garantidor, aposentados e o teto de cobertura
O Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) cobre até 75 salários mínimos mensais por pessoa física ou jurídica, teto equivalente hoje a 228.300.000 guaranis, cerca de US$ 38 mil — ou R$ 210,2 mil mensais, na conversão usada pelo Valor Econômico.
O diretor da autarquia Marco Aurelio González estimou que 97% dos clientes têm saldos dentro desse limite, com pagamento em até 15 dias úteis, prorrogáveis por mais 15. O problema está no que fica acima do teto: o fundo previdenciário estatal (IPS) tenta na Justiça recuperar cerca de US$ 380 milhões aplicados no banco e transferir o pagamento de 32 mil aposentados.
A crise política em volta do caso
Carvallo comandou o próprio Ueno antes de ser nomeado por Peña para o banco central, em 2023, e vinha sofrendo pressão tanto pela forma como a autarquia supervisionou a instituição quanto por suas conexões políticas. Ele assinou a carta de demissão nesta terça-feira (3), mas permanecerá no posto de forma provisória para conduzir a transição.
O caso também atinge diretamente o presidente paraguaio. Peña manteve sociedade comercial no Grupo Vázquez, conglomerado controlador do banco, até março de 2025, e precisou cancelar uma viagem oficial a uma cúpula na Espanha por causa do escândalo, que envolve um quarto dos depósitos da instituição em dinheiro público.
Na segunda-feira (2), o vice-presidente Pedro Alliana suspendeu sua pré-candidatura presidencial pelo Partido Colorado para 2028 e afirmou, em entrevista, que não existe projeto político possível sem antes arrumar a casa.
O que o banco dizia horas antes
A direção do Ueno divulgou nota oficial horas antes da coletiva de imprensa convocada pelo banco central para as 7h desta terça-feira. No texto, afirmou que não havia recebido nenhuma notificação formal sobre o acionamento do fundo garantidor, que seguia operando com normalidade e que não existia fundamento para tratar a medida regulatória como fato confirmado.
Diante das versões que circulam sobre uma suposta aplicação do Fundo de Garantia de Depósitos ao ueno bank, esclarecemos que nossa entidade não recebeu nenhuma notificação do Banco Central do Paraguai sobre uma medida dessa natureza. Rejeitamos a difusão de informações não verificadas que possam gerar alarme injustificado entre os depositantes e afetar a confiança no sistema financeiro.
Por que isso interessa ao investidor brasileiro
O Paraguai vinha se consolidando como um dos destinos emergentes da América do Sul para capital estrangeiro, boa parte dele vindo do Brasil — e o caso coloca essa reputação à prova justamente no elo mais sensível, o da supervisão bancária.
Nas redes, brasileiros que vivem no país apelidaram o episódio de "Banco Master do Paraguai", numa referência ao colapso do banco brasileiro. O aplicativo da instituição ficou fora do ar e agências amanheceram com filas e escolta policial. A empresária Eduarda Lobato relatou na plataforma X que ela e o namorado perderam o acesso às contas.
Para quem tem dinheiro no Ueno, o caminho é o FGD — e o limite de cobertura é o dado que importa mais do que o tamanho do banco.
Fonte: Banco Central do Paraguai, Livecoins, Valor Econômico e Bloomberg.
Foto: Cmasi, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.