O FBI confirmou no sábado (31) que o roubo de mais de US$ 6 bilhões em ativos virtuais da Binance, ocorrido por volta de 29 de outubro, foi executado por um grupo ligado à Coreia do Norte. Segundo o comunicado do bureau americano, o ataque é atribuído ao TraderTraitor, grupo que as autoridades dos Estados Unidos associam ao Lazarus Group. No mesmo fim de semana, a exchange informou que já repôs 90% dos cerca de US$ 6,3 bilhões levados no que é o maior assalto da história do setor de criptomoedas, e disse que as retiradas de clientes começaram a ser retomadas neste domingo (1º), de forma gradual.

O comunicado do FBI

O texto do FBI é direto quanto à atribuição: "a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte) foi responsável pelo roubo de mais de US$ 6 bilhões em ativos virtuais da exchange de criptomoedas Binance, em ou por volta de 29 de outubro de 2026".

A agência afirmou também que observou "atores do TraderTraitor" convertendo os ativos roubados em Ethereum e disse esperar que esses recursos sejam lavados adiante por meio de finanças descentralizadas (DeFi) e de serviços de swap instantâneo. Como medida preventiva, o FBI pediu que empresas privadas "bloqueiem transações com endereços — ou derivadas de endereços — que os atores do TraderTraitor estejam usando para lavar os ativos roubados".

O TraderTraitor é apontado como parte do Lazarus Group, grupo que ganhou notoriedade em 2014, quando foi acusado de invadir os sistemas da Sony Pictures. A confirmação oficial do FBI veio depois de atribuições iniciais feitas por investigadores e analistas privados, que o Guardian relata como suspeitas anteriores ao comunicado.

A reposição dos ativos e a volta dos saques

Do lado da exchange, a Binance afirmou que substituiu 90% do valor roubado. Os 10% restantes são formados por tokens menos líquidos, que podem levar mais tempo para serem recomprados — segundo publicação da própria companhia no X, no sábado.

O co-CEO Richard Teng disse separadamente que a empresa está "comprometida a cobrir os 10% restantes" e que "os usuários não vão arcar com o impacto financeiro deste incidente".

A Binance havia suspendido as retiradas de clientes logo após o ataque. No domingo (1º), a empresa informou que parte dos saques já foi retomada e que a liberação será feita em fases, para preservar a estabilidade da operação.

Para cobrir as perdas, a exchange reservou cerca de US$ 6,34 bilhões de recursos próprios. O dinheiro usado na recompra dos tokens saiu de três fontes, segundo a companhia:

  1. parte do Secure Asset Fund for Users (SAFU), reserva de US$ 1 bilhão mantida em bitcoin para proteger clientes em caso de falhas de segurança;
  2. parte do Futures Insurance Fund;
  3. a tesouraria corporativa da própria Binance.

Como o ataque foi descoberto

Teng descreveu o episódio como um ataque "complexo", que envolveu um laptop comprometido e um software malicioso desenhado para apagar evidências de sua atividade — o que, segundo ele, dificulta o rastreamento e a investigação. A atribuição do FBI aponta para um padrão conhecido: grupos patrocinados por Estados, que combinam a invasão de infraestrutura corporativa com a lavagem dos recursos em camadas sucessivas.

"Nosso compromisso continua o mesmo: a Binance vai cobrir integralmente o impacto financeiro dos recursos roubados neste incidente." — Binance

Reação do mercado

O assalto abalou os preços no dia do anúncio, segundo o Guardian: o bitcoin caiu quase 5%, o ether recuou cerca de 6% e o BNB, token nativo da Binance, tombou perto de 10%.

O caso também colocou sob os holofotes a capacidade da Coreia do Norte de capturar receita por meios ilícitos, em um país que enfrenta sanções internacionais extensas por seus programas nuclear e de mísseis. A escala do roubo reacendeu, ainda, a discussão sobre os riscos de segurança em exchanges offshore e sobre a necessidade de regras mais claras para o setor.

O que observar

O desenrolar do caso tem três frentes. A primeira é operacional: se a Binance conclui a reposição dos 10% restantes e normaliza os saques. A segunda é investigativa: se o rastreamento dos endereços ligados ao TraderTraitor consegue bloquear parte dos recursos antes que sejam lavados via DeFi. A terceira é regulatória: o episódio reforçou o coro de autoridades americanas por regras mais rígidas para exchanges que atendem clientes dos Estados Unidos.

Foto: ajay_suresh, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.