O contrato futuro do ouro para dezembro recuou 3,3% na sexta-feira (30) e encerrou a sessão na Comex, a divisão de metais da Bolsa de Mercadorias de Nova York (Nymex), a US$ 3.898,90 por onça-troy — o menor nível desde setembro de 2025. Na semana, a perda foi de 2,71%, e no mês fechado, de 6,9%, em um outubro marcado pela venda generalizada de ações de tecnologia e pela renovação dos temores de inflação nos Estados Unidos.
O movimento ocorreu em meio à onda de vendas que atingiu o setor de tecnologia, diante de preocupações com os gastos em inteligência artificial, e à alta do petróleo, que reacendeu as apostas em uma política monetária mais restritiva.
O que derrubou o metal
A Capital Economics atribuiu a queda do ouro às perspectivas de uma política monetária mais dura pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e à apreensão dos investidores em relação à inteligência artificial. O setor de tecnologia acumulou perdas após resultados trimestrais abaixo das expectativas de empresas como Alphabet e Intel.
A consultoria projeta que o ouro recue para a faixa de US$ 3.600 até o fim do próximo ano. A instituição avalia que um possível estouro da bolha no mercado de ações ligado à IA pode, no limite, aumentar a preocupação dos investidores com o metal.
O risco de liquidação em metais
Na mesma direção, o Saxo considera que a onda de vendas no setor de tecnologia amplia o risco de liquidação também no mercado de metais preciosos. A lógica é de portfólio: investidores podem vender posições nesses ativos para cobrir perdas e levantar recursos em outras frentes.
Inflação e petróleo no radar
Para a DHF Capital, a alta do petróleo reforça as expectativas de inflação persistente e as apostas em uma política monetária mais restritiva — fatores que continuam pesando sobre o ouro, um ativo que não paga rendimento e, por isso, perde atratividade quando os juros reais sobem. Os preços do petróleo voltaram a subir diante de novos bombardeios no Oriente Médio, enquanto as negociações diplomáticas seguem nos bastidores.
Segundo relatório do BeInCrypto, o metal acumula queda próxima de 30% desde o pico de janeiro e chegou a perder o suporte de US$ 4 mil nas últimas sessões. Os dados fortes da economia americana pressionaram as cotações: o PIB do terceiro trimestre superou as previsões, e o PCE de setembro subiu 0,5% no mês e 3,6% em 12 meses. Com isso, parte dos investidores ainda vê espaço para uma alta de juros em dezembro, mesmo depois de o Fed manter a taxa básica na faixa de 3,75% a 4,00% na reunião da semana passada.
A prata caiu junto
A prata seguiu o mesmo caminho e teve perdas ainda mais expressivas. O contrato para dezembro caiu 5,9% na sexta-feira, para US$ 49,276 por onça-troy, e atingiu o menor patamar desde novembro de 2025. Na semana, o recuo foi de 2,90%; em outubro, de 13,51%.
O que observar
O mercado de metais preciosos passou a operar em uma correlação incômoda com o setor de tecnologia. Se a aversão a risco ligada à IA continuar provocando resgates e realização de lucros em outras classes, o ouro pode seguir sem o apoio que tradicionalmente recebe em momentos de volatilidade. Do outro lado, uma eventual piora no cenário de inflação ou um sinal mais claro de corte de juros pelo Fed tendem a devolver ao metal o papel de proteção que o investidor brasileiro costuma buscar para a parcela internacional da carteira.
Vale registrar a divergência entre as casas. A Capital Economics trabalha com a faixa de US$ 3.600 até o fim de 2027, um cenário de continuidade da correção. Já a leitura do Saxo é menos direcional e mais tática: o problema imediato não seria o ouro em si, mas a necessidade de caixa dos investidores que perderam dinheiro em ações de tecnologia. A DHF Capital acrescenta o canal da inflação, com o petróleo em alta reforçando a leitura de juros altos por mais tempo.
O que o investidor deve olhar
Quem usa o metal como proteção cambial e de carteira costuma acompanhar três variáveis: a trajetória dos juros reais americanos, o dólar e a demanda de bancos centrais. As duas primeiras explicam boa parte do movimento recente — juros reais mais altos encarecem a manutenção de um ativo que não paga cupom, e o metal perde competitividade frente a títulos públicos indexados à inflação. A pergunta que os analistas ainda não respondem com convicção é se a queda recente é uma correção dentro de uma tendência de alta mais longa ou o início de um ciclo de baixa. Por isso, as projeções para 2027 divergem tanto.
Imagem: barras de ouro, domínio público (Szaaman), via Wikimedia Commons.
Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.