A Alphabet e a Microsoft divulgaram na quarta-feira (28), depois do fechamento de Wall Street, resultados que mediram de formas opostas o custo da corrida da inteligência artificial. A dona do Google viu a ação recuar cerca de 8% no pregão estendido — chegou a cair mais de 10%, para US$ 289,95, depois de fechar a US$ 321,89 — ao reportar receita abaixo do consenso e a segunda queima de caixa trimestral de sua história como companhia aberta. A Microsoft, que reportou na mesma noite, subiu, após gastar menos do que o mercado temia.

O contraste resume a temporada: nuvem em ritmo recorde dos dois lados, mas nenhuma trégua para quem ainda não provou quando os bilhões investidos em infraestrutura de IA vão virar caixa.

Nuvem dobra, publicidade decepciona

A receita total da Alphabet no terceiro trimestre de 2026 foi de US$ 127,58 bilhões, alta de 25% sobre o mesmo período de 2025, mas ficou abaixo das estimativas — US$ 127,97 bilhões, segundo a FactSet, ou US$ 128,2 bilhões, na compilação da LSEG. O lucro operacional somou US$ 40,58 bilhões, contra US$ 43,16 bilhões esperados.

  • Google Cloud: US$ 30,71 bilhões de receita, crescimento de 103% em um ano, com lucro operacional mais que triplicando, para US$ 11,1 bilhões, e margem que passou de 23,7% para 36,2%.
  • Publicidade: US$ 82,01 bilhões, cerca de US$ 1,41 bilhão abaixo do esperado — aí está a origem do tropeço no trimestre.
  • Lucro líquido: US$ 26,17 bilhões, ante US$ 34,98 bilhões um ano antes, queda de 25,2%.
  • Lucro por ação: US$ 2,12 no critério contábil, com uma perda de US$ 8,7 bilhões em investimentos de capital que reduziu o indicador em 55 centavos; na base ajustada, US$ 2,67, contra consenso de US$ 3,02.

O CFO Anat Ashkenazi afirmou que o capex — os investimentos em máquinas, obras e tecnologia — vai aumentar de forma significativa em 2027, e que a projeção para este ano segue inalterada. Ele também disse esperar pressão de margem no curto prazo pelo uso de capacidade de nuvem de terceiros.

Caixa negativo pela segunda vez

O dado que mais pesou sobre a ação foi o fluxo de caixa livre negativo em US$ 9,07 bilhões, contra a expectativa de analistas de que a companhia chegasse perto do equilíbrio. É o segundo trimestre consecutivo no vermelho — o anterior havia sido o primeiro em 22 anos de história como empresa listada, com US$ 5,9 bilhões negativos.

  1. O capex do trimestre foi de US$ 51,4 bilhões, alta de 114% em um ano, mais do que o caixa gerado pelas operações (US$ 42,3 bilhões).
  2. A companhia reportou prejuízo operacional de US$ 7,66 bilhões em "atividades de nível Alphabet", refletindo principalmente despesas de pesquisa e desenvolvimento em IA.
  3. A Alphabet levantou US$ 12,4 bilhões com emissão de ações no trimestre — US$ 4,3 bilhões em papéis Classe A e US$ 8,1 bilhões em Classe C, via programa at-the-market — e não recomprou papéis, contra US$ 11,5 bilhões em recompras um ano antes.
  4. Nos nove primeiros meses do ano, a receita soma US$ 357,3 bilhões, alta de 23,6%.

No balanço, a empresa atribuiu o crescimento da nuvem à demanda por infraestrutura de IA e disse que a área de Cloud já tem 18 linhas de produto com mais de US$ 1 bilhão de vendas anuais.

Microsoft: Azure a +48,2% e RPO de US$ 677 bi

A Microsoft apresentou o primeiro trimestre de seu ano fiscal de 2027, encerrado em 30 de setembro, com números acima do esperado em receita, lucro operacional e lucro por ação, segundo a CFO Amy Hood.

  • Receita: US$ 92,3 bilhões, alta de 18,8%.
  • Lucro líquido: US$ 36,6 bilhões no critério contábil, avanço de 32,0%; ajustado, excluindo o efeito dos investimentos na OpenAI, US$ 36,4 bilhões, alta de 18,1%.
  • Lucro por ação diluído: US$ 4,92 no contábil e US$ 4,89 no ajustado.
  • Lucro operacional: US$ 45,9 bilhões, alta de 21,0%, com margem de 49,8%.
  • Azure: receita de US$ 33,2 bilhões, crescimento de 48,2%. A linha Microsoft Cloud somou US$ 63,9 bilhões, alta de 30%.
  • Capex: US$ 39,4 bilhões, alta de 103,0% em um ano.
  • Obrigações de desempenho remanescentes comerciais: US$ 677 bilhões, alta de 73% — receita já contratada e ainda não reconhecida.

A diferença entre lucro contábil e ajustado vem dos investimentos na OpenAI: neste trimestre eles geraram ganho líquido de US$ 207 milhões, contra perda de US$ 3,1 bilhões um ano antes. O caixa gerado pelas operações foi de US$ 58,0 bilhões, 28,7% acima do ano anterior, e a dívida caiu de US$ 40,3 bilhões em junho para US$ 35,5 bilhões em setembro.

A conta da IA no radar do mercado

Os dois balanços saíram horas depois de o Federal Reserve manter os juros no intervalo de 3,75% a 4,00% ao ano, decisão já reportada por este site. O mercado vem punindo tanto quem acelera demais os gastos quanto quem fica para trás na infraestrutura de IA, e a leitura do trimestre reforça essa dinâmica: a Alphabet cresceu mais rápido na nuvem, mas foi cobrada pelo caixa; a Microsoft gastou menos do que o temido e foi premiada.

Para o investidor brasileiro, o recado é indireto, mas relevante: a demanda por infraestrutura de IA sustenta as cadeias de chips, energia e data centers que aparecem nas carteiras de tecnologia globais — e a volatilidade desses papéis tende a continuar atrelada à capacidade das companhias de transformar capex em receita recorrente.

Fonte: Reuters, AP, UOL, CNN Brasil e releases de resultados da Alphabet e da Microsoft (28 de outubro de 2026).

Foto: Austin McKinley, via Wikimedia Commons (CC BY 3.0).

Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.