A Binance retomou os saques de clientes na manhã deste domingo (1º) e, em cerca de três horas, aproximadamente US$ 2 bilhões em bitcoin, ether e stablecoins deixaram a exchange, segundo o rastreador on-chain Whale Alert. Boa parte das transferências foi classificada como envio para uma "carteira desconhecida" — e é aí que está a pergunta que domina o episódio: esse dinheiro está de fato saindo da plataforma ou apenas sendo reorganizado dentro dela?

O movimento acontece depois do maior roubo da história do setor de criptomoedas: cerca de US$ 6,3 bilhões em ativos foram levados da exchange em 29 de outubro, e as retiradas ficaram suspensas desde então.

A composição da saída

Os registros do Whale Alert detalhados pela BeInCrypto mostram quatro blocos principais:

  1. 10 mil BTC, equivalentes a cerca de US$ 779 milhões;
  2. quase US$ 1 bilhão em Tether (USDT);
  3. US$ 200 milhões em USD Coin (USDC);
  4. 30 mil ETH, da ordem de US$ 68 milhões.

Somados, os quatro blocos chegam perto dos US$ 2 bilhões que o rastreador atribui à Binance numa janela de poucas horas. Cada quantia foi marcada como destinada a uma carteira desconhecida pelo sistema do Whale Alert.

Carteiras novas e prova de reservas

A Binance afirmou no próprio domingo que passou a pagar todos os saques a partir de carteiras recém-geradas e que esses novos endereços foram adicionados à sua lista de prova de reservas — o conjunto público de carteiras que, segundo a exchange, guarda os ativos dos clientes.

A companhia não confirmou publicamente a correspondência entre cada transação e essas carteiras novas. O que ela informa é que já substituiu cerca de 95% dos ativos roubados e que reservou mais de US$ 6,34 bilhões de recursos próprios para cobrir o prejuízo, segundo a AFP.

A alta que não veio

Na sexta-feira, cerca de 34 horas antes da reabertura, o comentarista Ted Pillows disse a seus seguidores que a volta dos saques destravaria os preços.

"A Binance pretende retomar o serviço de saque em aproximadamente 34 horas. Isso vai causar uma alta no domingo." — Ted Pillows

Não houve alta. O bitcoin avançou apenas 1,05% nas 24 horas anteriores e era negociado a US$ 78.122 no momento da apuração — abaixo do patamar de US$ 79 mil perdido no dia do ataque. Um dia depois do roubo, investidores já tinham retirado US$ 643 milhões de ETFs de bitcoin.

O precedente da Bybit

O mercado tem uma referência recente. Quando a Bybit perdeu cerca de US$ 1,5 bilhão, em fevereiro de 2025, o bitcoin caiu de imediato cerca de 3% e o ethereum 7%, segundo dados da Kaiko. A Bybit zerou a fila de saques em cerca de 12 horas e, meses depois, o bitcoin atingiu o recorde de US$ 126.080, em outubro de 2025.

Se o roteiro vai se repetir é alvo de disputa aberta. O analista Charles Edwards afirmou não ter mais bitcoin desde o incidente da Binance, enquanto Giovanni Santostasi e Benjamin Cowen discordaram publicamente da avaliação dele em um painel de especialistas do BeInCrypto.

O que continua bloqueado

Até agora, só a primeira fase dos saques foi liberada, cobrindo 15 redes. O cofundador Yi He informou que as demais carteiras ainda passam por auditorias de segurança, sem previsão oficial de reabertura.

O que observar

O desenrolar do caso tem três frentes. A primeira é saber se os US$ 2 bilhões saídos nas primeiras horas são fluxo de clientes ou reorganização de carteiras da própria empresa — o que só ficará claro quando a Binance publicar a correspondência dos endereços. A segunda é o ritmo da liberação das fases seguintes, que ainda estão sob auditoria. A terceira é o efeito sobre as reservas: a exchange diz ter reposto 95% do que foi roubado, mas qualquer sinal de falta de ativos de clientes tende a acelerar os saques e pressionar o preço do bitcoin, que segue abaixo do nível anterior ao ataque.

Foto: Satheesh Sankaran, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.