A transmissora ISA Energia (B3: ISAE3) registrou lucro líquido regulatório de R$ 1,9 bilhão no terceiro trimestre de 2026, alta de 246% sobre os R$ 550 milhões do mesmo período do ano anterior. O salto vem quase todo de um efeito contábil: o descruzamento de participações com a Axia Energia, concluído em 31 de julho, acrescentou R$ 1,9 bilhão ao Ebitda e R$ 1,3 bilhão ao lucro, sem passar pelo caixa. Sem esse item, o lucro pró-forma ficou em R$ 625 milhões, avanço de 14% na comparação anual.
O comunicado foi divulgado na noite de terça-feira (3), e os executivos comentaram os números em entrevista à Reuters.
O que sustenta o resultado recorrente
A receita líquida regulatória cresceu 41%, para R$ 1,511 bilhão. Três projetos entraram em operação no período: Riacho Grande (SP), uma das maiores linhas de transmissão subterrâneas do país; Jacarandá (SP), voltado à demanda da região metropolitana de São Paulo; e Piraquê (MG/ES), que ficou pronta 16 meses antes do prazo regulatório.
- Projetos licitados: R$ 139 milhões de receita adicional
- Consolidação da IE Madeira, a partir de agosto: R$ 132 milhões
- Reforços e melhorias: R$ 51 milhões
- Parcela de Ajuste, Parcela Variável e antecipações do ciclo tarifário 2026/2027: R$ 136 milhões
A receita líquida operacional ex-RBSE, que exclui o que é apenas repasse, subiu 71%, para R$ 1,039 bilhão.
Ebitda, eficiência e o tamanho do efeito contábil
O Ebitda consolidado alcançou R$ 3,190 bilhões, alta de 259%. Na base pró-forma, que ignora a reorganização societária, o indicador somou R$ 1,252 bilhão, 41% acima dos R$ 888 milhões de um ano antes. No acumulado de nove meses, o Ebitda foi de R$ 5,2 bilhões, crescimento de 99%.
Os gastos com pessoal, materiais, serviços de terceiros e outros (PMSO) subiram 26%, para R$ 235 milhões. A relação entre esse gasto e a receita líquida operacional ex-RBSE caiu de 32% para 24%, o que a companhia apresenta como ganho de eficiência.
A operação com a Axia
O descruzamento veio acompanhado de uma torna de R$ 1,2 bilhão. A ISA Energia vendeu sua fatia na Interligação Elétrica Garanhuns, com receita anual permitida (RAP) ex-Parcela de Ajuste de R$ 165,3 milhões no ciclo 2026/2027, e passou a controlar integralmente a Interligação Elétrica do Madeira, de RAP ex-PA de R$ 796,7 milhões.
O efeito de R$ 1,9 bilhão no Ebitda reúne a remensuração a valor justo da participação que a companhia já detinha na IE Madeira, o ganho por compra vantajosa e o resultado da venda de Garanhuns. A empresa frisou que o valor não entra no caixa e não integra a base de distribuição de proventos de 2026.
Dívida e investimentos
A dívida líquida chegou a R$ 17 bilhões em setembro, 20% acima do fim de 2025, conforme a companhia executa o ciclo de obras. A alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda, caiu de 3,63 vezes para 3,50 vezes. O custo médio da dívida recuou de 7,56% para 7,27% após uma gestão de passivos de cerca de R$ 4 bilhões no primeiro semestre, que alongou o prazo médio em 2,7 anos e cortou o spread em 89 pontos-base.
Os investimentos somaram R$ 1,1 bilhão no trimestre, 9% menos que um ano antes: R$ 524,9 milhões em projetos novos e R$ 578 milhões em reforços e melhorias, segmento que a empresa passou a priorizar. A carteira autorizada pela Aneel nessa modalidade reúne R$ 7,6 bilhões em obras previstas para os próximos anos.
"É um trimestre em que a nossa disciplina de execução e a busca pela melhor alocação de capital estão se materializando em resultado", disse o presidente Rui Chammas.
Em setembro, a companhia anunciou R$ 398,7 milhões em juros sobre capital próprio, cerca de R$ 0,57 por ação, com pagamento previsto para 7 de dezembro.
O que vem pela frente
A ISA Energia estuda participar do leilão de transmissão marcado para o início de 2027 e do certame de baterias, no qual opera o primeiro sistema de larga escala do país. A diretora financeira Silvia Wada disse que a companhia vê o endividamento como "confortável", porque boa parte da dívida é atrelada ao IPCA, índice que também corrige a receita. Nos planos da companhia, a alavancagem deve ficar em torno de quatro vezes até 2028, patamar que considera saudável para um negócio de receita previsível.
Sobre o leilão de baterias, a transmissora discorda do entendimento da Aneel de que as empresas que disputarem o certame teriam de devolver parte da receita nova à modicidade tarifária. Para a diretora, a exigência reduziria a competição.
Para o investidor, o lucro pró-forma de R$ 625 milhões é a leitura mais fiel do trimestre; o R$ 1,9 bilhão que aparece no topo do balanço depende do efeito contábil. O acompanhamento daqui para a frente passa pela geração de caixa e pela alavancagem, enquanto a companhia executa R$ 7,6 bilhões em obras.
Fonte: ISA Energia (release de resultados do 3T26), Reuters/InfoMoney e Valor Econômico.
Foto: Mateus S. Figueiredo, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.