O Tesouro Nacional recomprou R$ 31,6 bilhões em títulos públicos em apenas dois dias, em três operações extraordinárias montadas para conter a disparada dos juros depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A cifra corresponde ao volume financeiro das recompras, e não a um prejuízo para os cofres públicos.
A intervenção começou na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, quando o Tesouro recomprou R$ 7,1 bilhões em títulos prefixados e outros R$ 7,7 bilhões em papéis corrigidos pela inflação — cerca de R$ 14,8 bilhões no total. Na terça-feira (27), uma terceira operação acrescentou aproximadamente R$ 16,8 bilhões à conta: o órgão adquiriu 95,39% do lote de 4 milhões de títulos atrelados à inflação ofertados no leilão extraordinário.
Além das recompras, o Tesouro cancelou todos os leilões regulares de venda previstos para a semana: os de prefixados e de papéis indexados à inflação, na segunda-feira, e o de Letras Financeiras do Tesouro (LFT), as "Tesouro Selic", na terça. A nova recompra abrangeu NTN-B com vencimentos em 15 de agosto de 2030, 15 de maio de 2035, 15 de agosto de 2040 e 15 de maio de 2045.
O tamanho da reprecificação em quatro dias
O que o Tesouro tentou conter aparece com clareza na comparação das taxas. Na quinta-feira (22), o órgão havia vendido papéis prefixados com vencimento em 2031 a 12,86% ao ano. Na segunda-feira, recomprou títulos do mesmo vencimento a 15,79% — uma diferença de 2,93 pontos percentuais em quatro dias.
As recompras de 26 de outubro saíram a estas taxas:
- NTN-F 2031: 5.000.000 de títulos a 15,79% ao ano.
- NTN-F 2033: 2.400.000 de títulos a 15,61%.
- NTN-F 2037: 1.000.000 de títulos a 15,37%.
- NTN-B 2030: 271.000 títulos a 7,75%.
- NTN-B 2035: 1.000.000 de títulos a 7,72%.
- NTN-B 2050: 486.850 títulos a 7,25%.
No mesmo pregão de segunda-feira, o Ibovespa caiu 13,88% — o maior tombo em anos, com acionamento de circuit breaker — e o dólar avançou 8,21%, encerrando a R$ 5,40. Nos juros futuros, o contrato de DI para janeiro de 2027 subiu de 13,465% para 13,725%; o de janeiro de 2028 saltou de 12,855% para 14,905%; o de janeiro de 2029, de 12,64% para 15,25%.
O alívio veio na terça
Na terça-feira (27), com a atuação do Tesouro e o ajuste de posições, as taxas cederam. No Tesouro Direto, os prefixados abandonaram o patamar de até 15,50% ao ano registrado na véspera e passaram a oferecer até 14,81% ao ano — o Prefixado com juros semestrais 2037 ficou em 14,81%, e o Prefixado 2029, em 14,79%. Os papéis indexados à inflação operaram em faixas próximas de IPCA + 7% a IPCA + 7,6%, dependendo do vencimento.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, atribuiu a turbulência ao reposicionamento dos agentes financeiros, e não a uma mudança nos fundamentos da economia.
O mercado estava apostando numa vitória eleitoral.
A leitura é compartilhada por parte do mercado: o movimento de segunda-feira foi, em boa medida, o desmonte do "trade Flávio" — posições compradas em ativos brasileiros montadas na expectativa de uma vitória de Flávio Bolsonaro e de um ajuste fiscal mais rápido. Quando as urnas contrariaram essa aposta, a corrida para limitar prejuízos acelerou as vendas.
Recompra não é solução fiscal
Ao comprar títulos em circulação, o Tesouro absorve parte da oferta e ajuda a restabelecer condições de negociação, sem fixar uma taxa específica de juros. As operações reduzem ao mesmo tempo o caixa disponível e o estoque da dívida representado pelos papéis adquiridos.
Analistas alertam que a intervenção trata o sintoma, não a causa. Em entrevista ao Valor, o economista Leonardo Goldenstein resumiu a ressalva: se a questão fiscal não for encaminhada, recomprar títulos seria como "enxugar gelo".
O que observar
- Volatilidade: a expectativa é de que as taxas sigam oscilando nos próximos pregões, enquanto o mercado recalibra as apostas sobre o ajuste fiscal do novo mandato.
- Leilões: com todos os leilões da semana cancelados, o Tesouro deve retomar as vendas regulares quando a volatilidade ceder — o calendário e as taxas de retomada serão o termômetro do estresse.
- Renda fixa: quem já tem títulos prefixados marcados a mercado registrou ganho com a queda das taxas; quem pretende comprar encontra juros ainda muito acima dos níveis de setembro.
- Câmbio: a taxa de câmbio e os juros futuros continuam sendo os canais mais sensíveis ao humor pós-eleitoral.
Fonte: Valor Econômico, Veja, Folha de S.Paulo e InfoMoney (27 e 28 de outubro de 2026).
Foto: Senado Federal, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
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