A Circle Internet Group (NYSE: CRCL) reportou nesta quarta-feira (4) receita total e de reservas de US$ 865 milhões no terceiro trimestre de 2026, alta de 17% na comparação anual, e lucro líquido das operações continuadas de US$ 226 milhões. Junto com o balanço, a emissora do USDC informou um corte de aproximadamente 5% do quadro de funcionários.
O resultado mostra uma empresa que ainda ganha dinheiro com a taxa de juros sobre as reservas do USDC, mas que passou a depender cada vez mais de outras fontes de receita — entre elas a venda antecipada de tokens de sua própria rede.
Os números do trimestre
- Receita total e de reservas: US$ 865 mi (+17% a/a)
- Lucro líquido das operações continuadas: US$ 226 mi (+5%)
- EBITDA ajustado: US$ 317 mi (+85%)
- Receita de reservas: US$ 658 mi (−8%)
- Outras receitas: US$ 207 mi (+627%)
- Receita menos custos de distribuição (RLDC): US$ 453 mi (+55%), margem de 52%
O lucro cresceu 5% porque a receita de reservas caiu: o retorno sobre a reserva recuou 61 pontos-base, para 3,5%, ainda que a média de USDC em circulação tenha subido 8%. Já o salto de 85% do EBITDA ajustado vem de duas coisas que não se repetem automaticamente — os US$ 182 milhões reconhecidos na venda antecipada do token ARC e a queda de 8% nos custos de distribuição, para US$ 412 milhões.
As despesas operacionais subiram 16%, para US$ 245 milhões, pressionadas por despesas administrativas, infraestrutura de TI e marketing.
USDC: mais volume, menos taxa
- USDC em circulação (média do período): US$ 73,3 bi (+8%)
- USDC em circulação (fim do período): US$ 73,9 bi (estável)
- Volume transacionado on-chain: US$ 13,9 trilhões (+49%)
- USDC na plataforma: US$ 13,9 bi (+36%)
- Participação de mercado: 27% (−183 pontos-base)
- Carteiras relevantes (mais de US$ 10 em USDC): 7,3 milhões (+16%)
A leitura é de uma stablecoin que circula muito mais sem crescer no estoque: o giro subiu quase 50%, mas o total em circulação ficou praticamente parado no ano e a fatia de mercado caiu. Como a receita da Circle é, em boa medida, o juro sobre esse estoque, o volume maior não compensa a taxa menor.
ARC e a aposta na rede própria
A Circle lançou a mainnet pública da Arc em 16 de setembro, com mais de 100 construtores institucionais no primeiro dia, e concluiu a emissão inicial de 10 bilhões de tokens ARC — segundo a companhia, a primeira empresa de capital aberto a cunhar o token de rede de uma blockchain de camada 1 própria. A rede deve migrar para prova de participação em 2027.
A comunidade de desenvolvedores reúne, ainda segundo a empresa, 75 mil membros do Arc House e 10 mil embaixadores, que construíram mais de 1.200 projetos durante a mainnet privada. A venda antecipada de ARC movimentou US$ 242,2 milhões acordados, a US$ 0,30 por token e valuation totalmente diluído de US$ 3 bilhões.
Corte de quadro e guidance mantido
A nota de rodapé das tabelas de resultado informa uma redução de aproximadamente 5% da força de trabalho, com US$ 9,1 milhões em despesas de reestruturação, principalmente aviso prévio, verbas rescisórias e benefícios. A Circle tinha cerca de 1.100 funcionários no fim de 2025, segundo seu relatório anual, e não divulgou o número absoluto de demissões.
A companhia manteve as projeções para o ano: outras receitas entre US$ 310 milhões e US$ 330 milhões e despesas operacionais ajustadas entre US$ 570 milhões e US$ 585 milhões. No trimestre anterior, a receita total e de reservas havia sido de US$ 701 milhões.
Binance, Tazapay e a expansão de pagamentos
Entre os destaques comerciais do trimestre, a Circle citou o investimento de US$ 100 milhões da Binance em ações da companhia, com renovação e ampliação da parceria para levar o USDC à plataforma global da corretora, com foco em mercados emergentes.
A empresa também assinou acordo definitivo para comprar a Tazapay, plataforma de pagamentos transfronteiriços B2B sediada em Singapura, com conclusão prevista para 2027 e sujeita a aprovações regulatórias. A Tazapay traz mais de US$ 25 bilhões em volume anualizado, mais de 60 parceiros bancários e de fintechs e trilhos de pagamento em mais de 100 mercados; cerca de 60% do volume já envolve stablecoins.
A rede de pagamentos da Circle (CPN) alcançou US$ 41,3 bilhões em volume anualizado. A lista de integrações do trimestre inclui Samsung Wallet, Visa Direct, a Tereina apoiada pela SAP, a argentina Allaria e a Volante Technologies, além do patrocínio principal ao Chelsea.
"No terceiro trimestre, vimos prova contínua de que as instituições estão construindo e expandindo sobre o USDC. A Tereina está trazendo USDC e EURC para o ecossistema SAP, a Visa levou o pré-financiamento em stablecoin para implantação comercial e a Binance renovou e ampliou nossa parceria", disse Jeremy Allaire, cofundador, CEO e presidente da Circle.
Para o investidor brasileiro, o balanço interessa por dois motivos práticos: a Circle é hoje uma das principais referências de preço de stablecoin em bolsa americana, e a decisão de cortar custos no mesmo trimestre em que a receita de reserva cai mostra que o modelo depende do ciclo de juros dos Estados Unidos.
Fonte: Circle (release de resultados do 3º trimestre de 2026).
Foto: BrayLockBoy, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.